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(Célio Furtado) - 14/07/2010
O goleiro Bruno, do Flamengo, acaba de se envolver num
crime brutal. Conta-se que desossaram a moça. Ora, desossa-se
boi. Então, isso é brutal. Às vezes tenho a
impressão que crime brutal quem cria é a mídia.
Quanto mais ênfase se dá, mais brutal se torna.
Infelizmente é assim.
Deixemos o assunto. Retomo ao fim, se houver espaço.
Em janeiro de 1895, um ano antes de explodir a guerra dos Canudos,
Beato Conselheiro olhou o grande deserto baiano, e gritou:
´´O Sertão vai virar mar.´´ A frase
atravessou o tempo. Aportou dias atrás no agreste de
Alagoas e Pernambuco.
O sertão virou mar. O mar trouxe consigo uma tsunami. Destruiu
cidades inteiras, provocou mortes, deixou desaparecidos, milhares
desabrigados.
O Nordeste tem um histórico de flagelos. Os mais incisivos
são seca, ignorância e abandono político. E
não é só o Nordeste. O país tropeça
na própria força. Problemas novos se somam aos velhos,
continuam atuais como a frase de Conselheiro.
No passado pesava o fanatismo religioso, sobretudo na
população carente. Hoje o fanatismo mudou de templo, e de
configuração. A nova versão é pura
alienação, de um lado; do outro, farsa e
exploração. Deus que se vire.
E se vira mesmo. O mundo está cada vez mais violento. A natureza
também. Semanas atrás um simples vulcão parou a
Europa - lá existe um número bem grande deles. A
terra em fúria desmanchou o Haiti, como a dar chance para
recomeçar tudo. Depois decidiu desorganizar o Chile; ondas
atravessaram continentes, chegaram ao Japão. Era Deus dizendo
que por aqui ainda existe força maior que a América.
Como a maioria, deixei de rezar. Oração se transformou em
arma. De repente as coisas estão bem, aí somos fortes;
quando ficam mal viramos coitadinhos, quais bandidos desarmados.
Ora, o mundo está farto do mundo. E Deus de nós. As
chances foram muitas, mas o homem, como sempre, continua a desafiar,
desapontar o seu senhor. Não há respeito para nada
nem em lugar algum. Os crimes de pedofilia estão aí, e
não ficam por aí... Nas outras igrejas se cometem crimes
também absurdos. Em nome de Jesus se compra, vende-se, e
fortunas vão se formando. Aí o governo e a justiça
dizem: ‘’ "Isso Deus resolve" ‘’. E assim tem
sido a mesa do
escritório divino: depósito do sobejo humano.
Temos internet, celular, carros velozes, inteligência.
Religião é coisa do passado, ainda do tempo em que um
certo maluco, lá no sertão da Bahia, subia num monte, e
gritava coisas absurdas. Mas no passado se andava a pé e
se matava em nome da honra. Hoje se mata pela simples
certeza de impunidade.
É a banalidade da vida. Sem julgador nem justiça para
punir, os valores desmoronam. A anarquia invade os instintos
humanos. Quem está programado para cometer crimes, vai em
frente. E ri de todos, do estado de direito, da polícia, de
nós, que parecemos cansados de Deus, que parece cansado do
mundo, e de nós.
Qual o planeta, a órbita humana está desajustada. Algo
paira no ar, não sei o que, mas paira. Deve acontecer algo, e
precisa. É urgente, pois com tanta injustiça, diante de
tanta impunidade, tem-se a impressão que o monstro da lagoa
emergirá. Que surja logo, antes que desossem todo o corpo e
extirpem, da alma, o que restou da fé. E antes que Deus,
cansado, nos deixe de vez.