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(Célio Furtado) - 24/06/2010
Década de 60, época dos grandes festivais de
música. O júri elegeu "A Banda" para ser a
vencedora, mas o público queria "Para não dizer
que não falei das flores" de Vandré.
Então este disse: "a vida não se resume em
festivais".
Qual era a mensagem? Havia um país mergulhado em problemas.
E aquilo não era o mais importante. O tempo passou, os
problemas continuaram, e continuam. O espírito do povo
brasileiro parece o mesmo.
Somos uma nação do presente. Por isso, tudo o que
importa agora é futebol. A Pátria mãe
gentil e suas dificuldades podem esperar. Amanhã
será outro dia. Por enquanto, estamos ganhando,
classificados.
Adversários fracos? E daí? Não
é necessário nem aguardar pelo jogo contra
Portugal. Conseguimos seis pontos, garantimos entrada para a
próxima fase.
Semana passada, plena terça-feira, o país parou
ao meio dia. Era a estreia contra a Coréia do Norte. Partida
fácil, fizemos pouco, apenas 2 a 1. Mas ganhamos.
Então, do anseio, fez-se a união; da expectativa,
a explosão festiva. Uma simples vitória motivou
grande comemoração.
Entre buzinas, pensei e concluí: ´´Nada
mais forte no brasileiro que o sentimento de torcer em copa do
mundo´´. Mas... e amanhã? Que
será dessa gente se a equipe de Dunga esbarrar nas oitavas?
Com a equipe e o jogo apresentados pela Argentina e Alemanha
não podemos afirmar que somos donos da jabulani.
Até aqui somos quem melhor festeja.
Em copa do mundo o país dá as mãos com
a fé de uma oração, torce com a
força de um gigante e celebra como se não
houvesse amanhã. Tudo é festa e
emoção, nada incomoda, senão a derrota.
Há razão nisso. Não fomos colonizados
por alemães, holandeses nem ingleses. Viemos de Portugal e
da África.
Foi a fanfarra portuguesa que, desde o início, transformou a
colônia em casa de mãe joana. Tudo era permitido,
inclusive aversão ao trabalho. Essa missão coube
aos filhos da África que, além da
força física, trouxe atabaques e a ginga para
dançar o que hoje se confere nos estádios do
país sede do campeonato.
Brasileiro que sou, continuarei torcendo e esperando por outras
vitórias. Hoje, contra Portugal, depois por quem vier.
A próxima semana trará nova fase, novas
expectativas, surpresas e esperanças. Um jogo
mudará tudo. Que venha Argentina, Espanha, Alemanha.
Não importa. Vamos querer ganhar. Mas... e se não
ganharmos?
Aí vamos acordar e tocar a vida, enxergar os problemas que
nos cercam. Eles são muitos e de toda sorte:
violência, corrupção, desemprego.
Não estou aqui para lembrar Vandré nem para
não dizer que não falei das flores. Mas para
dizer que a vida não se resume em festivais nem o
país em futebol.