portalbip.com (Célio Furtado) - 02/06/2010
Uma pintura tem várias etapas; é como um projeto. A primeira delas é a
inspiração, conjunto de estímulos sobre o pensamento ou atividade
criadora. Dela brotam representações mentais (as idéias) responsáveis
pelo desenvolvimento da composição. Esta, enquanto idéia afigura-se
pronta, perfeita, sem a necessidade de quaisquer mudanças ou, sequer,
retoques.
É próprio da mente humana idealizar coisas que só podem existir na
esfera do imaterial. Elas brotam e se multiplicam numa seqüência
complexa de pensamentos, idéias vagas, às vezes agradáveis, às vezes
incoerentes. É uma forma do espírito fugir à realidade, de buscar a
perfeição desejada pelo homem.
A execução, contudo, quase nunca obedece à fantasia porque geralmente
está acorrentada, dependente dos limites do campo material. Para o
exercício imitar a idéia é preciso vocação, tempo, técnica e
disciplina. E muito não importará a dádiva de ter nascido talentoso se
a isso não assomar o domínio técnico adquirido a custo, muitas vezes
alto, que implica em anos, a fio, de devotamento.
Esquecemos muito das coisas que aprendemos, daí que no curso da vida o
rio do aprendizado escorre lento precisando, vez ou outra, fazer
curvas, dar voltas, percorrer segmento paralelo, trilha sinuosa.
O motivo é simples: a faculdade do esquecimento trabalha com a
dedicação que nos faltou na hora de aprender algo. Por razão vem a
necessidade de recapitular, rememorar quase tudo. Por isso o curso do
conhecimento segue lento.
Para mim uma das etapas mais importantes de um projeto é justamente a
dedicação, o empenho, afeição profunda que só pode brotar através da
vocação. O fazer bem é o melhor caminho para se fazer melhor, pois o
bom resultado é um eficaz estímulo para o demorado destino do
aperfeiçoamento técnico.
Para Sócrates a repetição é a mãe do estudante. Este pensamento leva a
crer que quem faz bem quer fazer sempre, e quem faz sempre acaba
encontrando a verdade sobre o que faz. Quando chegamos neste estágio
parecemos ter encontrado a idealização do início da atividade
criadora: a perfeição. Isto pode ser difícil, até muito difícil, mas,
como dizia o filósofo, impossível, não!