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Minha mãe

portalbip.com (Célio Furtado) - 12/05/2010
Eu nasci no interior, cresci lá. Só fui embora porque a vida me obrigou. No dia de partir - uma manhã fria e cinzenta de julho - minha mãe acordou cedo, forrou a mesa com uma toalha branca, rendada nos cantos, preparou o café, fez cuscuz, tapioca e ovos de capoeira. Fizemos a refeição em silêncio, quebrado somente por alguns conselhos do meu pai.

Deixamos as palavras para a despedida sabendo ser mais fácil assim. Mas as lágrimas dos olhos azuis da minha mãe vieram antes da hora.

Precisava dizer algo, então disse-lhes que ia me cuidar, que o mundo não era tão grande assim. ´´Para quem não vai demorar, a saudade deve ser pequena, mãe ´´, disse a ela, num pedaço de riso, forçado, com o propósito de reparar o vexame esboçado pelo instante.

Mas coração de mãe, que foi feito para sofrer e guardar saudade sabia que filho nasce com o direito de partir, jamais com a obrigação de voltar. Por isso, foi paciente. Ciente do seu destino, abençoou o meu, entregando-me à sorte sob a luz da virgem Maria, esperançosa de que me encontrasse com a felicidade pelo caminho que, a partir dali, sem seus passos seguiria.

Dizem que somente sentimos a amargura da perda quando nos damos conta de que realmente perdemos quem nos amava, cuidava e envolvia. Foi quando me lembrei de uma frase escrita numa cartolina na parede da escola da minha infância: ´´Como Deus não podia estar em todos os lugares ao mesmo tempo, criou as mães´´.

Crescemos e as necessidades vão nos mudando também. Faltas, tropeços e obrigações vão endurecendo o coração, abrandando a alma. A vida nos envolve de coragem e energia, suficientes para arrostarmos os desafios deparados a cada amanhecer.

Ficamos assim porque nesse estágio da existência podemos nos defrontar com o maior dos desafios: a perda definitiva da mãe. Qual uma planta adulta, que deixou para trás sua frágil condição de broto, precisamos estar fincados suficientemente ao solo para que o impacto não nos sacuda e interrompa a vida que um dia ela, com seu doce afeto, nos presenteou.

Distante, com a falta dos seus cuidados e sem o cuidado do seu amor, sofria nos momentos de maior aflição. Era um choro contido, uma dor segurada para que o mundo não me amedrontasse, ao saber das minhas faltas.

Vinham as lembranças de menino, nem todas porque a maioria se perde na estrada do tempo. O sol de agora é o mesmo de ontem, as manhãs também, mas o passado ficou imóvel, como pedras. Ao rever velhas fotografias ainda reencontro a criança que treinava bicicleta, brincava no quintal, pulava a janela da cozinha para roubar bolo nas tardes de sábado.

Lembro que no fantasioso universo infantil tudo era possível. Por isso o dia nos permitia a liberdade, isso porque, no fundo, sabíamos - meus irmãos e eu - que havia alguém para nos proteger contra qualquer mal ou risco. A noite chegava trazendo consigo o medo e a incerteza, mas seus braços se abriam num abraço de aconchego, amor e segurança, como se dissessem que tudo estava bem, que nada devíamos temer.

A vida e a rotina não queriam que voltasse, mas o destino o permitiu. Hoje estou ao seu lado, e feliz por isso. Cada dia é precioso. Sei que a senhora sabe que continuo a lhe amar, com a grata compreensão de que tenho a melhor mãe do mundo. Repito esse pensamento sempre, todos os dias, para meu coração ouvir e entender que a única verdade existente é aquela que cultivamos e dia-a-dia passamos a acreditar.

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