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A triste história de Raí

portalbip.com (Célio Furtado) - 24/11/2009
Chamava-se Raimundo, mas o conhecíamos por Raí. Era o filho mais velho de um bancário que virou amigo do meu pai. Pelo fim da tarde, sol frio, os meninos do bairro se encontravam no racha do campinho. Ficava por trás da igreja matriz, sob a proteção de Nossa Senhora das Mercês.

Raí tinha mais dois irmãos, Kléber e Moisés, ambos bem considerados quando o assunto era futebol. Ele, que usava óculos, era diferente dos outros em quase tudo, até no tipo. Magro e alto, gostava de ler, não dava muita importância a bola, e só jogava
no gol, e se não houvesse outro para substituí-lo.

No campinho havia um pé de trapiá. Ficava dum lado, entre o muro da igreja e amontoados de lixo, que atraíam vira-latas e urubus. O cheiro forte incomodava, mas os meninos não davam importância. Também não se importavam com os esgotos que serpenteavam, ora beirando a sombra da árvore, ora beijando uma das traves. A bola
rolava revolvendo a areia fina, dando movimento à monotonia da tarde, embalando a vida simples do interior. Alheio, Raí acompanhava da sombra do trapiá. Livro aberto, usava o tronco como encosto.

Às vezes o provocavam: - Vem pro gol, que faço você entrar com bola e tudo!

Sério, calava. Quando muito, tinha resposta curta: - Quero não.

Foi numa daquelas tardes que alguém chegou com um recado avisando que os meninos fossem depressa para casa. À primeira vista, não se soube o que acontecera, mas pelo jeito devia ser coisa ruim. E era.

O dia em que perdeu a mãe estava distante no passado. Morreu na mesma hora do seu nascimento. Por isso não gostava de comemorações de aniversário. Parto difícil aquele. O feto estava em situação transversa, e ninguém pôde salvar. A velha Mariana, avó do menino, então o adotou, assumindo, bem dizer, o lugar da mãe.

Mas não demorou, foi coisa de meio ano, para o pai de Raí encontrar nova companheira. O tempo de namoro também foi curto, assim como o casamento e a vinda dos outros filhos, Kléber e Moisés.

Como se vê, o tempo que tudo endireita, também não tem tempo para desfazer. E desfez, quando parecia ter devolvido a felicidade àquela família. Cidade pequena, que tem vida simples e quase sem alteração, quando em vez surpreende. Foi o que aconteceu.

Naquela tarde o pai dos meninos voltava do banco depois de um dia exaustivo e encontrou a porta fechada. Bateu várias vezes e demoradamente, sem, contudo haver resposta.

Esperou, porém a mulher não abriu, nem a empregada, nenhum dos meninos, ninguém. Olhou através da fechadura; a chave estava por dentro. Uma vizinha veio e disse que os meninos deviam estar no campinho: "Eles saíram com o meu, disseram que iam jogar,
e Eliane - a empregada - foi pegar o filho na escola."

Então chamou pelo nome, bateu à porta muitas vezes, foi à janela, insistiu; nada. Decidiu entrar pelos fundos. Forçou, porém a aldrava não cedeu. Olhou através das fendas e não viu qualquer movimento. Que teria acontecido? Por que a mulher não atendia? A impaciência do homem despertou quem passava.

Arranjaram uma escada, alguém subiu para ver. Por dentro, a porta foi destrancada. De repente um choque lhe queimou o coração. O grito repercutiu seco e estridente, que rompeu toda a rua. O corpo da mulher estava de lado, como se dormisse.

O homem, em prantos, abraçava a mulher, pensava nos meninos. Ainda lembro a expressão de quem chegou ao campinho trazendo o recado. Depois decidiram que os meninos ficariam em nossa casa, até as coisas se acalmarem.

O passado ficou adormecido na imobilidade de si mesmo. Como tudo cuida em passar, essa história também passou e só veio à mente porque ontem, na rua, encontrei um rapaz, homem feito. Devia ter minha idade. Sentado num banco de praça, lia. Era magro, alto, usava óculos. Absorvido na leitura, não percebeu que o olhava. Desejei que lesse algo bom, envolvente, história bem melhor que essa despertada pelo encontro.

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