portalbip.com (Célio Furtado) - 06/11/2009
Uma tarde dessas retornava para a cidade de Cuité, vindo da
região dos Brandões, grande extensão de terras que abraça espaço deste
município paraibano, e de Japi, já no Rio Grande do Norte, quando
encontrei um velho, a cavalo, descendo a ladeira da fazenda Providência. O
rapaz que me acompanhava, residente no lugar de onde vínhamos, contou se
tratar de um respeitado fazendeiro no passado, então possuidor de riqueza
considerável.
Disse-me que dele eram extensas áreas, terras divididas entre a cultura do
algodão, próspero e que ocupava centenas de hectares, e a criação de gado
bovino, entre corte e leiteiro, a maioria criado às soltas. "Vacas e
bichos pequenos, que também não eram poucos, recebiam manejo de curral,
onde se tirava o leite, de fartura, para o
fabrico de manteiga e queijos. Digo porque meu pai trabalhou para ele,
como vaqueiro" – ressaltou.
Confesso que o animal, de belo porte e boa raça, atraiu-me a atenção,
porém me ateve muito mais o destaque das feições de quem o montava. Os
olhos miúdos e claros, emoldurados por um rosto longo, acentuados por uma
barba que me lembrou o enredo de Cervantes, causavam-lhe mistura de
angústia e recolhimento. A pele enrugada denotava cansaço resultante do
peso dos anos, ao passo que o jeito firme de montar lhe rendia ares de
orgulho e altivez, seguramente muito presentes noutra época.
Enquanto o vimos se perder de vista - ladeira abaixo - continuou a narrar
fatos da sua vida como se bem o conhecesse. "Sei porque meu pai conta e
porque também, vez ou outra, ele passa por esses pés de serra"- disse no
seu linguajar. "Costuma andar só, e sempre a cavalo. Antes um ajudante, de
confiança, acompanhava-lhe, mas até ser encontrado morto, estirado no chão
do quarto da casa onde morava. Disseram que morreu de repente."
"Veio outro para ficar no lugar. Ainda esforçado, mas sem o trato e o
apuro de atenção do primeiro. Não dispensou de todo porque precisava de
quem cuidasse do animal."
Suas histórias, que eram tristes, renderam por toda a viagem. Tivera
mulher e filhos, mas ela morreu de parto de um temporão, por bem dizer uma
menina. Os outros, três homens, cresceram, casaram e, pouco a pouco,
assumiram os negócios do pai.
Ocorre que na casa grande e vistosa sobrava espaço para um homem de idade.
Por isso fizeram por certo morar perto e passar maior parte do tempo em
sua companhia. Mimos e cuidados, entre filhos, noras e netos, vieram,
dia-a-dia, mais e mais, a ponto de
uma noite reuni-los e lhes transferir, em vida, os bens.
Semanas se passaram, e como nuvens de fertilidade que se dispersam para
ceder lugar ao sol inclemente, o tempo mudou, e em meio a ele, a vida
envolvente. Assim, não demorou para o homem rico e querido se transformar
num velho, pobre e esquecido. Por
sorte, restou-lhe uma pequena propriedade que estava em nome do ajudante.
Mudou-se. O mundo passou a ser aquele lugar; a família, o fiel escudeiro.
A morte deste o abalou tanto quanto a da própria mulher que levou junto a
única filha. Pensou-se que dia ou outro iam encontrá-lo caído num desses
caminhos. Eram frequentes reclamos e recomendações da gente próxima. – Não
tem mais idade para andar sozinho por aí, - dizia um. O velho, impassível,
saía assim mesmo, selasse-lhe
o cavalo, ou não, a qualquer hora, a qualquer tempo.
A notícia veio ontem pela mãe do rapaz, que chegou contando: "Encontraram
ele morto, numa porteira, na sombra de uma baraúna." Foi quando me lembrei
do cavalo. "Dava até pena ver o animal, que não arredou dos pés dele, como
se pastorasse – disse a mulher.
Depois fiquei pensando. Um dia o homem ganhou tudo, noutro tudo perdeu.
Restaram o cavalo, a terra em abandono e as histórias que criou ao longo
da existência. As histórias podem até não ter tanta importância, mas as
lições, se bem tomadas, sem dúvida serão de muito e estimado valor.