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Mãos da Indiferença

portalbip.com (Célio Furtado) - 15/10/2009
Estou na fazenda Retiro, município de Cuité, por décadas passagem de quem rumava para o rio grande. Tão antiga quanto a vida de Japi, tão grande quanto as serras que lhe compõem. Estão cheias de azul. Do meio delas surge, a intervalos, a estrada. Vem de Cuité, vem no transporte do tempo, trazendo história e saudade,
embalada em pedaços de lembranças.

Da sombra de uma centenária baraúna contemplo a vida em redor. O caminho serpenteado, salpicado de pedras miúdas, que conduzia à casa velha, sobrevive ao tempo, lutando para não virar mato.

A fazenda é grande, um mundo dentro de outro mundo. A estrada avança, aproveita-se do baldo do açude dos Batentes, terra vizinha e irmã, criadas juntas, uma a ouvir o choro da outra, suas alegrias, suas agruras, sonhos, esperanças e desencantos.

Primeiro cheguei a Batentes que guarda silêncio em respeito à ausência dos antigos moradores. Como a sombra do sol, deixei-me ficar por algum tempo no alpendre da casa onde, no passado, cordões de bandeirinhas coloriam as festas de São João.
Portas, janelas e paredes – gastas - lembram a casa da fazenda Malhada. De resto, pouco mudou.

Esse lugar me rende lembranças que, de tão profundas e marcantes, parecem vivas, tanto são as provocações das coisas que restam. Elas venceram o tempo, transpassaram as barreiras da ausência; quietas e mudas, ficaram para contar história.

Batentes fica para trás e sigo para o Retiro, como faziam meus antepassados. A despeito do tempo, procuro alguém conhecido. Não há ninguém, somente lembranças.

História feita de lida que enfeita de vida a memória. A terra foi desapropriada.

Ontem berço das famílias Simões e Pimenta, hoje terra de posseiros.

De repente uma fisgada me punge sem dó, e espalha-se pelo peito. Procuro a casa grande do Retiro, mas ela não está, nem onde esteve por mais de cento e cinqüenta anos, nem em lugar nenhum. Meu Deus! – Disse comigo.

- Meu Deus – repito. A dor no peito se multiplica, torna-se tão intensa que as lágrimas brotam feito nascente. Uma mulher caminha em minha direção.

- O que fizeram da casa grande? – Pergunto.

- O novo dono derrubou pra fazer outra.

A flecha da saudade lançada pelas mãos das grandes recordações parece me dilacerar por inteiro.

Em que casa velha reside o órgão do governo que permite alguém demolir, indiscriminada e irresponsavelmente, quase duzentos anos de história, soterrar a memória das famílias que construíram cidades e região?

A lei manda o Ibama para punir com pena de reclusão quem atira numa ave de arribação, mesmo que se justifique necessidade de saciar a fome em tempo de seca. Não envia ninguém para deter quem abate a memória do país.

Aves de arribação partem do Canadá, pousam na caatinga, desovam e depois rumam para o sul. São milhões.

A casa da fazenda Retiro era apenas uma, sótão para avistar extensos campos de algodão, altar onde frades celebravam missas, sala espaçosa para reuniões domésticas, despensa com girais e cozinha para fabricação de queijos.

Tudo foi destruído pela indiferença e ignorância de quem não consegue enxergar um palmo à frente do próprio nariz. Mais absurdo é saber que a fazenda dispõe de cerca de três mil hectares. A casa grande foi derrubada sob o argumento de que, em seu
lugar, seria erguida outra, melhor, mais moderna, assim como as de hoje. Além de quatro paredes, um telhado e uma antena parabólica, moderna é a indiferente do poder público.

Certa vez o poeta Augusto dos Anjos chegava a casa no momento em que derrubavam, a machado, o tamarineiro da sua infância. Seus versos disseram muito. As lágrimas de quem viveu na casa grande do Retiro certamente disseram muito, mas não impediram os
golpes de marreta que abateram o barro da memória e do passado. Lamentavelmente.

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