História feita de lida que enfeita de vida
a memória. A terra foi desapropriada.
Ontem berço das famílias Simões e Pimenta, hoje terra de posseiros.
De repente uma fisgada me punge sem dó, e espalha-se pelo peito. Procuro a
casa grande do Retiro, mas ela não está, nem onde esteve por mais de cento
e cinqüenta anos, nem em lugar nenhum. Meu Deus! – Disse comigo.
- Meu Deus – repito. A dor no peito se multiplica, torna-se tão intensa
que as lágrimas brotam feito nascente. Uma mulher caminha em minha
direção.
- O que fizeram da casa grande? – Pergunto.
- O novo dono derrubou pra fazer outra.
A flecha da saudade lançada pelas mãos das grandes recordações parece me
dilacerar por inteiro.
Em que casa velha reside o órgão do governo que permite alguém demolir,
indiscriminada e irresponsavelmente, quase duzentos anos de história,
soterrar a memória das famílias que construíram cidades e região?
A lei manda o Ibama para punir com pena de reclusão quem atira numa ave de
arribação, mesmo que se justifique necessidade de saciar a fome em tempo
de seca. Não envia ninguém para deter quem abate a memória do país.
Aves de arribação partem do Canadá, pousam na caatinga, desovam e depois
rumam para o sul. São milhões.
A casa da fazenda Retiro era apenas uma, sótão para avistar extensos
campos de algodão, altar onde frades celebravam missas, sala espaçosa para
reuniões domésticas, despensa com girais e cozinha para fabricação de
queijos.
Tudo foi destruído pela indiferença e ignorância de quem não consegue
enxergar um palmo à frente do próprio nariz. Mais absurdo é saber que a
fazenda dispõe de cerca de três mil hectares. A casa grande foi derrubada
sob o argumento de que, em seu
lugar, seria erguida outra, melhor, mais moderna, assim como as de hoje.
Além de quatro paredes, um telhado e uma antena parabólica, moderna é a
indiferente do poder público.
Certa vez o poeta Augusto dos Anjos chegava a casa no momento em que
derrubavam, a machado, o tamarineiro da sua infância. Seus versos disseram
muito. As lágrimas de quem viveu na casa grande do Retiro certamente
disseram muito, mas não impediram os
golpes de marreta que abateram o barro da memória e do passado.
Lamentavelmente.
