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O despertar de Arlete

portalbip.com (Célio Furtado) - 02/08/2009
O menino apoiou o pé no banquinho de madeira, Arlete amarrou-lhe o cadarço. Puxou a barra da calça, cobrindo o sapato.

- Quando a senhora vai comprar outros sapatos pra mim, mãe? – perguntou num tom frágil.

- A mãe vai receber dinheiro, aí vamos comprar outros, bem bonitos; ta bom?

- Tá, aí quando eu tiver de sapato novo os meninos não vão mais rir desses aqui porque eu só vou pra escola com o novo.

- É, não vão, te prometo, ta? – Disse tomando o menino contra o peito para esconder uns olhos estreitos de emoção. Beijou-lhe a face e disse: “Vamos, senão vai chegar atrasado. “

Ela sacudiu a cabeça para afugentar as nuvens de pensamentos que lhe extirpavam a tranqüilidade. Sem sono e sozinha as noites pareciam invernos. Dormia com o céu já manchado de amanhecer. Mas logo o sol invadia o quarto, despertando-a.

Para Arlete as horas se passavam como pás de moinho, carregadas pelas águas do acaso, a contar, indiferente, o tempo, ganhando força para esmagar os grãos da rotina. Por Deus, não podia permanecer naquele ritmo, com a vida a ranger-lhe o cérebro feito uma máquina velha e emperrada.

Buscaria alento na coragem, que ainda apresava, sabendo que quem perde os bens perde muito, mas quem perde a coragem, perde tudo.

Não podia ser moinho a vida inteira, limitado e dependente do curso d’água. Não, não podia. Reuniria forças, custasse o que custasse, para ver a transformação processada e depois passar a existir como água em movimento, posseira de vida e energia.

Ter compreensão dessa necessidade já era um começo, um ponto de partida importante. Esse pensamento até que ajudou, mas o que decidiu foi a leitura de um artigo numa revista na sala de espera do ginecologista. “Viver bem, o melhor e o maior desafio da vida.”

Arlete entendeu que para cada ato ou projeto existe um tempo determinado, e que esse tempo estaria relacionado a fatores como necessidade e vontade pessoal; e quanto mais intensas fossem essas, maior seria sua relação com o tempo. “A insatisfação é
um poderoso estopim para a explosão. A esta faltará apenas a fagulha,” leu, movendo os lábios para fixar melhor.

O texto despertou sentimentos adormecidos e valores que, pensava, tinham-se apagados no dia-a-dia como passos na areia. Aprendera que os caminhos precisavam ser percorridos com regularidade para conhecê-los melhor e criar uma relação mais
confiante em relação a eles. “Como pessoas, caminhos não mudam, são transformados”.

Era verdade porque a razão de ser de um caminho era conduzir a alguma coisa, ou a algum lugar. Podia-se até alterar ou interromper seu sentido, mas ele jamais mudaria na essência. Assim também eram as pessoas. Elas sempre tinham objetivos e destinos
pré-estabelecidos. Por isso existiam para ser o que um dia viriam a ser. Se mudassem é porque deviam mudar.

Sabendo-se que as grandes transformações partem das observações mais inesperadas, esse pensamento despertou sensações na mente de Arlete, deixando-a aturdida, a
princípio.

Dias depois, ao deitar, agora bem mais leve e segura, sentia que a vida se tornara, de um momento para o outro, suficiente. Mas isso não bastava por entender que as situações eram sempre diferentes umas das outras. O que hoje poderia ser exato, amanhã possivelmente seria inexato ou insuficiente, levando a descompasso e desordem
espiritual.

Arlete se fez uma daquelas pessoas que tornam surpreendente uma vida que já não podem suportar. Se ela soube, não sei, mas já que estava bem é possível que tenha se tornado curso d’água, pois, ao se deparar com o desagrado dentro da suficiência, gerou no espírito impulso e movimento, e no coração satisfação e prazer.

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