Por aquela época ele se queixava de dores no ventre. Os
incômodos, dizia, eram produzidos pelos defeitos. “Ninguém possui mais
aberrações do que eu. Sorte que sou humano.”
Também reclamava de ansiedade e irritação súbita. Os achaques, dizia,
partiam das incertezas sobre as decisões que tomava. “Ninguém pode esperar
mais do que eu, e isso é o que me motiva a ansiedade, que causa irritação,
que me torna um sujeito cheio de defeitos que, por efeito, provocam-me as
dores no ventre. ”
Todavia não se achava uma pessoa pessimista. Tinha critérios. “O fato de
me rotular inseguro não me credencia outro rótulo, o de agourento.” Até
conseguia divisar virtudes no seu mar de agruras e distorções, por achar
que só pode crescer na vida aquele que reconhece os próprios limites.
Problemas todos tinham, é certo, e mesmo com eles, e por maior que fosse o
número, o mundo não se acabaria por isso. “Há muitas pessoas que precisam,
admiram e torcem por você, considerando-se você merecedor, ou não.”
Depois de um tempo as dores subiram para o peito, desdobrando-se em fadiga
espiritual. Foi quando perdeu motivação até mesmo para ir às missas
dominicais. Deste modo, passou a refletir sobre a tristeza em vez de
valorizar o sorriso, a pensar nas incompreensões e desafios em vez de se
envolver com a superação e a vitória.
O mundo não o compreendia – pensava. A certeza disso estava na quantidade
de desafios. Estes existiam para serem suplantados, mas não em contagem
que não se pudesse dar conta. Buscou comparações nas coisas naturais e nas
emoções, encontrou
limite e harmonia em toda natureza. Viu que para o dia existia noite, que
para a tristeza a alegria, para o mal o bem.
Nesse tempo concluiu que tudo estava em equilíbrio, menos ele. Por uns
dias se imaginou o José de Drummond, pois as festas tinham-se acabado e as
noites se tornado frias e silenciosas.
As dores no peito inquietaram-no a ponto de buscar socorro num
cardiologista. “O problema é clínico, e não existencial,” concluiu. Até
torceu por um diagnóstico positivo, embora razoável. Mas os exames
disseram o contrário. “Você continua um menino”, disse o médico.
As conclusões trouxeram outras, novas e envolventes, mas não salvadoras.
“Bem, se não são clínicas, são existenciais.” Foi aí que começou a ver as
coisas com os olhos dos outros, e com outros olhos também. Desse ângulo
notou que não andava tão mau assim. Assim sendo, acabou por entender que
havia jeito para tudo, menos para a morte.
Agora as dores tinham subido ainda mais, estavam presas na mente. Mudou
tudo. O que antes era sentimento passou a ser razão, o que era provável
passou a ser exato. “Porra! É a lógica da vida!” – gritou,
esmurrando o ar.
No dia seguinte acordou com a idéia de que a vida era pura matemática,
ação e reação, crime e castigo, acerto e recompensa. Foi para debaixo do
chuveiro, lavou o corpo e a alma.
Percebeu que as dores haviam desaparecido menos a do peito que vinha como
uma fisgada. Não sabia explicar bem, mas dessa vez dava a entender que era
uma coisa doce, feliz, que entusiasmava, preenchia e que, por isso, devia
permanecer.
