PUBLICIDADE

Fale conosco
Quem somos
Comunidade PortalBip
João Pessoa - PB -

As reflexões de um homem nu

portalbip.com (Célio Furtado) - 06/05/2009

Por aquela época ele se queixava de dores no ventre. Os incômodos, dizia, eram produzidos pelos defeitos. “Ninguém possui mais aberrações do que eu. Sorte que sou humano.”

Também reclamava de ansiedade e irritação súbita. Os achaques, dizia, partiam das incertezas sobre as decisões que tomava. “Ninguém pode esperar mais do que eu, e isso é o que me motiva a ansiedade, que causa irritação, que me torna um sujeito cheio de defeitos que, por efeito, provocam-me as dores no ventre. ”

Todavia não se achava uma pessoa pessimista. Tinha critérios. “O fato de me rotular inseguro não me credencia outro rótulo, o de agourento.” Até conseguia divisar virtudes no seu mar de agruras e distorções, por achar que só pode crescer na vida aquele que reconhece os próprios limites.

Problemas todos tinham, é certo, e mesmo com eles, e por maior que fosse o número, o mundo não se acabaria por isso. “Há muitas pessoas que precisam, admiram e torcem por você, considerando-se você merecedor, ou não.”

Depois de um tempo as dores subiram para o peito, desdobrando-se em fadiga espiritual. Foi quando perdeu motivação até mesmo para ir às missas dominicais. Deste modo, passou a refletir sobre a tristeza em vez de valorizar o sorriso, a pensar nas incompreensões e desafios em vez de se envolver com a superação e a vitória.

O mundo não o compreendia – pensava. A certeza disso estava na quantidade de desafios. Estes existiam para serem suplantados, mas não em contagem que não se pudesse dar conta. Buscou comparações nas coisas naturais e nas emoções, encontrou
limite e harmonia em toda natureza. Viu que para o dia existia noite, que para a tristeza a alegria, para o mal o bem.

Nesse tempo concluiu que tudo estava em equilíbrio, menos ele. Por uns dias se imaginou o José de Drummond, pois as festas tinham-se acabado e as noites se tornado frias e silenciosas.

As dores no peito inquietaram-no a ponto de buscar socorro num cardiologista. “O problema é clínico, e não existencial,” concluiu. Até torceu por um diagnóstico positivo, embora razoável. Mas os exames disseram o contrário. “Você continua um menino”, disse o médico.

As conclusões trouxeram outras, novas e envolventes, mas não salvadoras. “Bem, se não são clínicas, são existenciais.” Foi aí que começou a ver as coisas com os olhos dos outros, e com outros olhos também. Desse ângulo notou que não andava tão mau assim. Assim sendo, acabou por entender que havia jeito para tudo, menos para a morte.

Agora as dores tinham subido ainda mais, estavam presas na mente. Mudou tudo. O que antes era sentimento passou a ser razão, o que era provável passou a ser exato.  “Porra! É a lógica da vida!” – gritou, esmurrando o ar.

No dia seguinte acordou com a idéia de que a vida era pura matemática, ação e reação, crime e castigo, acerto e recompensa. Foi para debaixo do chuveiro, lavou o corpo e a alma.

Percebeu que as dores haviam desaparecido menos a do peito que vinha como uma fisgada. Não sabia explicar bem, mas dessa vez dava a entender que era uma coisa doce, feliz, que entusiasmava, preenchia e que, por isso, devia permanecer.

Primeira Página | Índice de Notícias | Fale Conosco | Quem Somos | Comunidade Portalbip

Copyright © portalbip.com - 2004 - Todos os direitos reservados  - Fone da Redação (83) 8868-1617 - Design Pedro Andrade