PUBLICIDADE

Fale conosco
Quem somos
Comunidade PortalBip
João Pessoa - PB -

O banho de Vinaura

portalbip.com (Célio Furtado) - 29/04/2009

De cima do telhado os meninos olhavam Vinaura tomar banho. A luz morta da tarde entrava através das telhas afastadas e invadia a semiescuridão do banheiro velho. Chuveiro enferrujado, cheiroso a creolina e a sabonete barato, impregnados para sempre nos recantos encardidos pelo lodo enegrecido.

Vinaura ensaboava o corpo moreno. Os seios empinados e viçosos brilhavam apontando para as brechas. Os meninos estavam deitados, tesos, mas de mãos inquietas.

Viera de um sítio próximo à fazenda do avô dos meninos. Arranjara a moça porque nunca tinha visto tão disposta para o trabalho de casa. Não cozinhava comidas grã-finas, ela até tinha dito mas o seu tempero era coisa de fazer inveja a qualquer

um e tinha um cheiro que abria apetite até de doente. Seu café cheirava tanto que atravessava o corredor, tomava conta do quintal e alcançava a vizinhança.

Usava vestidos de chita floridos. Eram dois: um em que predominavam as flores vermelhas, outro as amarelas e azuis. Também tinha uma saia escura e uma blusa branca de um candidato a prefeito pela Arena. Os cabelos crespos eram estirados à
força de óleo de coco guardado num frasco ao lado duma imagem de Nossa Senhora da Conceição no quartinho "lá de trás", onde se determinou que ficasse.

Da cumeeira via-se toda a cidade: o prédio da prefeitura, a igreja, a escola, as covas do cemitério. As casas conjugadas pareciam tijolos empilhados, os quintais pequenas florestas de fruteiras. Dava para ver o coentro verde na horta, os caminhos d’água que partiam da lavanderia. Na casa dos meninos existia um sabugueiro e um pedaço de uma romanzeira; um pedaço porque a árvore , a bem dizer, pertencia ao vizinho de baixo. Um dos galhos sobrava, vencia o muro empenado e pendia quase a tocar o chão.

Chamava-se o vizinho de baixo porque a rua se enladeirava suavemente. Ali morava um velho enfermo, completamente calvo, de tosse constante e que escarrava o tempo inteiro. Dava para ouvir. " Uma alma viva, coitado! " Os meninos viviam assustados. Recomendava-se, ninguém sabia por que, para não pularem. "Naquele quintal não pode!"

Bastaram dois dias para os meninos saberem a hora em que a moça entrava para o banho. Ela cantava as músicas que tocavam no parque de canoas. Nessa hora não se via mais a luz amarela do sol iluminando as fachadas das casas do outro lado da praça nem o primeiro andar da prefeitura.

- Que bundona!

- Fala baixo!

Viram por uma eternidade, coisa de poucos segundos. A nenhum ocorreu que o telhado pudesse despencar, ceder ou simplesmente estalar. O menino pisou onde não podia pisar. Vinaura, ensaboada, gritou.

Ouviu-se um miado, coisa que os meninos faziam muito bem. Os dois se precipitaram telhado abaixo, correram pela meia-parede, fizeram todo o caminho de volta. Invadiram a casa da vizinha. "Dona Anália é uma cobra, vamos morrer!"

A mulher preparava o jantar, achou ter visto algo a passar em direção à sala. Foi tão rápido, diacho! Ainda quis olhar, mas andava com a vista cansada, a mente também. Gente velha era assim mesmo, por isso nem voltou os olhos para ver.

Primeira Página | Índice de Notícias | Fale Conosco | Quem Somos | Comunidade Portalbip

Copyright © portalbip.com - 2004 - Todos os direitos reservados  - Fone da Redação (83) 8868-1617 - Design Pedro Andrade