De cima do telhado os meninos olhavam Vinaura tomar
banho. A luz morta da tarde entrava através das telhas afastadas e invadia
a semiescuridão do banheiro velho. Chuveiro enferrujado, cheiroso a
creolina e a sabonete barato, impregnados para sempre nos recantos
encardidos pelo lodo enegrecido.
Vinaura ensaboava o corpo moreno. Os seios empinados e viçosos brilhavam
apontando para as brechas. Os meninos estavam deitados, tesos, mas de mãos
inquietas.
Viera de um sítio próximo à fazenda do avô dos meninos. Arranjara a moça
porque nunca tinha visto tão disposta para o trabalho de casa. Não
cozinhava comidas grã-finas, ela até tinha dito mas o seu tempero era
coisa de fazer inveja a qualquer
um e tinha um cheiro que abria apetite até de doente. Seu café cheirava
tanto que atravessava o corredor, tomava conta do quintal e alcançava a
vizinhança.
Usava vestidos de chita floridos. Eram dois: um em que predominavam as
flores vermelhas, outro as amarelas e azuis. Também tinha uma saia escura
e uma blusa branca de um candidato a prefeito pela Arena. Os cabelos
crespos eram estirados à
força de óleo de coco guardado num frasco ao lado duma imagem de Nossa
Senhora da Conceição no quartinho "lá de trás", onde se determinou que
ficasse.
Da cumeeira via-se toda a cidade: o prédio da prefeitura, a igreja, a
escola, as covas do cemitério. As casas conjugadas pareciam tijolos
empilhados, os quintais pequenas florestas de fruteiras. Dava para ver o
coentro verde na horta, os caminhos d’água que partiam da lavanderia. Na
casa dos meninos existia um sabugueiro e um pedaço de uma romanzeira; um
pedaço porque a árvore , a bem dizer, pertencia ao vizinho de baixo. Um
dos galhos sobrava, vencia o muro empenado e pendia quase a tocar o chão.
Chamava-se o vizinho de baixo porque a rua se enladeirava suavemente. Ali
morava um velho enfermo, completamente calvo, de tosse constante e que
escarrava o tempo inteiro. Dava para ouvir. " Uma alma viva, coitado! " Os
meninos viviam assustados. Recomendava-se, ninguém sabia por que, para não
pularem. "Naquele quintal não pode!"
Bastaram dois dias para os meninos saberem a hora em que a moça entrava
para o banho. Ela cantava as músicas que tocavam no parque de canoas.
Nessa hora não se via mais a luz amarela do sol iluminando as fachadas das
casas do outro lado da praça nem o primeiro andar da prefeitura.
- Que bundona!
- Fala baixo!
Viram por uma eternidade, coisa de poucos segundos. A nenhum ocorreu que o
telhado pudesse despencar, ceder ou simplesmente estalar. O menino pisou
onde não podia pisar. Vinaura, ensaboada, gritou.
Ouviu-se um miado, coisa que os meninos faziam muito bem. Os dois se
precipitaram telhado abaixo, correram pela meia-parede, fizeram todo o
caminho de volta. Invadiram a casa da vizinha. "Dona Anália é uma cobra,
vamos morrer!"
A mulher preparava o jantar, achou ter visto algo a passar em direção à
sala. Foi tão rápido, diacho! Ainda quis olhar, mas andava com a vista
cansada, a mente também. Gente velha era assim mesmo, por isso nem voltou
os olhos para ver.
