Depois de caminhar por uma hora Aarão chegou à estrada
principal. Ali passava o ônibus que o levaria até a cidade. Havia
transporte direto, da escola às comunidades próximas, mas ele preferiu
seguir todo o percurso a pé. Era um exercício rico para o desenvolvimento
da espiritualidade. Caminhar significava se despir de qualquer
interferência da vaidade.
O rapaz olhou para trás e mediu o tamanho do esforço empreendido. O joelho
dolorido lembrava o tropeço na ladeira pedregosa. Havia um pequeno corte.
Abriu o cantil. A água estava bem fria, bebeu; em seguida lavou o
ferimento, gerando algum alívio. Para o mestre aquilo podia ser traduzido
em lições.
Era o início da Sabedoria. Eclesiástico! “Não ande por caminho acidentado,
e você não tropeçará nas pedras”. Uma referencia clara à lei da
probabilidade sobre a qual tudo é possível desde que você se envolva com
tudo.
A manhã estava iluminada. O céu azul podia ser visto através dos imensos
galhos das árvores que cobriam trechos da estrada. Percebeu que fazia
parte daquilo, pois a partir do instante em que partes se encontram
inicia-se uma relação de troca. São as
necessidades naturais.
Envolver-se significava amar alguma coisa o que representava, na maioria
das vezes, um passaporte para o sofrimento. Mas as relações são inerentes
da natureza humana. As pessoas dependem de relações que lhes proporcionem
efeitos na alma, como a saudade, o desejo e a alegria da chegada.
No entanto as emoções precisam ser administradas para não provocar danos
ao espírito. Por maior que seja a saudade ela jamais pode ser maior que o
amor. As recordações devem causar o sentimento de que um dia se viveu uma
experiência. Se ela
proporcionou alegrias quem a viveu teve a graça de vivê-la; mas se
proporcionou efeitos desagradáveis serviu como ensinamento.
Escorado num tronco Aarão falava para si mesmo, como se conversasse com
alguém. Sua atitude talvez pudesse ser traduzida num gesto involuntário de
iniciar um diálogo com a própria natureza que respondia com o açoite do
vento, o canto das aves e todas
as formas de vidas possíveis.
Sobre os excessos achava que tinham forte relação com a vaidade que, por
sua vez, influenciava o sofrimento já que este decorre, muitas vezes, do
descontrole sobre as emoções.
“Se não as controlamos perdemos a noção do limite, e excesso nada mais é
que a falta de limite. Por isso, devemos manter a tentação em eterna
vigilância, “ dizia o mestre com freqüência.
Suas divagações foram interrompidas por um ruído vindo da curva da
estrada. O ônibus surgiu rompendo o silêncio, afugentando os pássaros e
empoeirando tudo em sua volta. Partiu deixando para trás um mundo cheio de
relações alimentadas pelo necessário,
sem faltas, sem excessos.
