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Sem faltas, sem excessos

portalbip.com (Célio Furtado) - 25/03/2009

Depois de caminhar por uma hora Aarão chegou à estrada principal. Ali passava o ônibus que o levaria até a cidade. Havia transporte direto, da escola às comunidades próximas, mas ele preferiu seguir todo o percurso a pé. Era um exercício rico para o desenvolvimento da espiritualidade. Caminhar significava se despir de qualquer
interferência da vaidade.

O rapaz olhou para trás e mediu o tamanho do esforço empreendido. O joelho dolorido lembrava o tropeço na ladeira pedregosa. Havia um pequeno corte. Abriu o cantil. A água estava bem fria, bebeu; em seguida lavou o ferimento, gerando algum alívio. Para o mestre aquilo podia ser traduzido em lições.

Era o início da Sabedoria. Eclesiástico! “Não ande por caminho acidentado, e você não tropeçará nas pedras”. Uma referencia clara à lei da probabilidade sobre a qual tudo é possível desde que você se envolva com tudo.

A manhã estava iluminada. O céu azul podia ser visto através dos imensos galhos das árvores que cobriam trechos da estrada. Percebeu que fazia parte daquilo, pois a partir do instante em que partes se encontram inicia-se uma relação de troca. São as
necessidades naturais.

Envolver-se significava amar alguma coisa o que representava, na maioria das vezes, um passaporte para o sofrimento. Mas as relações são inerentes da natureza humana. As pessoas dependem de relações que lhes proporcionem efeitos na alma, como a saudade, o desejo e a alegria da chegada.

No entanto as emoções precisam ser administradas para não provocar danos ao espírito. Por maior que seja a saudade ela jamais pode ser maior que o amor. As recordações devem causar o sentimento de que um dia se viveu uma experiência. Se ela
proporcionou alegrias quem a viveu teve a graça de vivê-la; mas se proporcionou efeitos desagradáveis serviu como ensinamento.

Escorado num tronco Aarão falava para si mesmo, como se conversasse com alguém. Sua atitude talvez pudesse ser traduzida num gesto involuntário de iniciar um diálogo com a própria natureza que respondia com o açoite do vento, o canto das aves e todas
as formas de vidas possíveis.

Sobre os excessos achava que tinham forte relação com a vaidade que, por sua vez, influenciava o sofrimento já que este decorre, muitas vezes, do descontrole sobre as emoções.

“Se não as controlamos perdemos a noção do limite, e excesso nada mais é que a falta de limite. Por isso, devemos manter a tentação em eterna vigilância, “ dizia o mestre com freqüência.

Suas divagações foram interrompidas por um ruído vindo da curva da estrada. O ônibus surgiu rompendo o silêncio, afugentando os pássaros e empoeirando tudo em sua volta. Partiu deixando para trás um mundo cheio de relações alimentadas pelo necessário,
sem faltas, sem excessos.

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