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O tempo do contratempo

portalbip.com (Célio Furtado) - 11/03/2009

O orvalho da madrugada molhava as folhas produzindo frescor na vegetação e avivando o perfume das flores. Entre as árvores uma névoa tênue; entre os arbustos um caminho estreito e serpenteado.

A vida na escola Taigor era bem diferente da instituída no mundo cotidiano. “Vejam as obrigações como possibilidades e oportunidades para a superação”, ensinava o mestre. Para ele eram estado de ânimo. “Ela incomoda, e o que incomoda serve como
ensinamento”, alertava.

A cada manhã um aluno era escalado para o que se chamava de primeira ocupação: aventurar-se pela mata da escola em busca de lenha para alimentar a cozinha. O mestre entrava no quarto dos internos bem cedo. Acendia a luz, anunciava a tarefa e o aluno. Do sono remoto Aron escutou seu nome. Acreditava em todas as coisas menos ouvir seu nome naquele amanhecer.

O aluno recebia um envelope contento um ensinamento. Enquanto saía para cumprir a obrigação devia encontrar relação entre o que estava anotado e a natureza. “Quero você aqui com lenha e reflexões em quarenta minutos”, gritou o mestre.

Aron caminhava pela trilha, ainda dominado pelo sono, refletindo sobre as frases: “Quão pura é a alegria da tristeza, precioso o tempo do contratempo! ”

Os primeiros raios de sol surgiram transbordando sobre a vegetação. Os pássaros festejavam um novo dia, embalados pelo vento com cheiro de terra e raízes. Aron espirou fundo e sentiu um grande prazer. A primeira sensação foi esquecer a cama e o
sono. Depois agradeceu por estar vivo e poder desfrutar de tudo aquilo. “O mestre tem razão quando diz que o melhor da arte encontra-se nos detalhes”.

“Alegria da tristeza?”, disse para si. Como poderia a tristeza proporcionar contentamento? Leu outras palavras escritas num canto da página. Saudade, desejo, espera, encontro. Uma seqüência lógica. Saudade causa tristeza, mas o desejo do
encontro traz consigo a espera. Esperar vinha de esperança. Pensou no mestre outra vez: “ O que nos mantém vivos, senão a esperança, Aron?”

Enquanto juntava a lenha refletia e admirava a grandeza do momento. De repente foi assaltado pelo medo de estar só em lugares como aquele. No seu inconsciente a mata, mesmo aquela, podia abrigar todas as espécies de animais. Imaginou ter ouvido um
silvo ou berro. A lenha foi atirada num canto. O instinto lhe pediu para correr. Quando as pernas venceram o susto, consultou o relógio. Meu Deus! “O que farei com apenas dez minutos”, gritou.

O pensamento se transformou em palavras soltas, altas. “O mestre sempre diz que as respostas estão nos ensinamentos. Leia e reflita!” “Precioso o tempo do contratempo”. Isso, claro, claro! Nada mais precioso que o tempo, Aron. O contratempo nada mais é que um inimigo que chega para roubá-lo de nós. Gera medos, obstáculos e nos diz que dez minutos não é nada.

Apanhava um resto de lenha quando percebeu que não estava sozinho. Ergueu a cabeça. Era o mestre, que disse: “Caro Aron, dez minutos de vida também é vida. Venha!”

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