O orvalho da madrugada molhava as folhas produzindo
frescor na vegetação e avivando o perfume das flores. Entre as árvores uma
névoa tênue; entre os arbustos um caminho estreito e serpenteado.
A vida na escola Taigor era bem diferente da instituída no mundo
cotidiano. “Vejam as obrigações como possibilidades e oportunidades para a
superação”, ensinava o mestre. Para ele eram estado de ânimo. “Ela
incomoda, e o que incomoda serve como
ensinamento”, alertava.
A cada manhã um aluno era escalado para o que se chamava de primeira
ocupação: aventurar-se pela mata da escola em busca de lenha para
alimentar a cozinha. O mestre entrava no quarto dos internos bem cedo.
Acendia a luz, anunciava a tarefa e o aluno. Do sono remoto Aron escutou
seu nome. Acreditava em todas as coisas menos ouvir seu nome naquele
amanhecer.
O aluno recebia um envelope contento um ensinamento. Enquanto saía para
cumprir a obrigação devia encontrar relação entre o que estava anotado e a
natureza. “Quero você aqui com lenha e reflexões em quarenta minutos”,
gritou o mestre.
Aron caminhava pela trilha, ainda dominado pelo sono, refletindo sobre as
frases: “Quão pura é a alegria da tristeza, precioso o tempo do
contratempo! ”
Os primeiros raios de sol surgiram transbordando sobre a vegetação. Os
pássaros festejavam um novo dia, embalados pelo vento com cheiro de terra
e raízes. Aron espirou fundo e sentiu um grande prazer. A primeira
sensação foi esquecer a cama e o
sono. Depois agradeceu por estar vivo e poder desfrutar de tudo aquilo. “O
mestre tem razão quando diz que o melhor da arte encontra-se nos
detalhes”.
“Alegria da tristeza?”, disse para si. Como poderia a tristeza
proporcionar contentamento? Leu outras palavras escritas num canto da
página. Saudade, desejo, espera, encontro. Uma seqüência lógica. Saudade
causa tristeza, mas o desejo do
encontro traz consigo a espera. Esperar vinha de esperança. Pensou no
mestre outra vez: “ O que nos mantém vivos, senão a esperança, Aron?”
Enquanto juntava a lenha refletia e admirava a grandeza do momento. De
repente foi assaltado pelo medo de estar só em lugares como aquele. No seu
inconsciente a mata, mesmo aquela, podia abrigar todas as espécies de
animais. Imaginou ter ouvido um
silvo ou berro. A lenha foi atirada num canto. O instinto lhe pediu para
correr. Quando as pernas venceram o susto, consultou o relógio. Meu Deus!
“O que farei com apenas dez minutos”, gritou.
O pensamento se transformou em palavras soltas, altas. “O mestre sempre
diz que as respostas estão nos ensinamentos. Leia e reflita!” “Precioso o
tempo do contratempo”. Isso, claro, claro! Nada mais precioso que o tempo,
Aron. O contratempo nada mais é que um inimigo que chega para roubá-lo de
nós. Gera medos, obstáculos e nos diz que dez minutos não é nada.
Apanhava um resto de lenha quando percebeu que não estava sozinho. Ergueu
a cabeça. Era o mestre, que disse: “Caro Aron, dez minutos de vida também
é vida. Venha!”
