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Ilusão e limite

portalbip.com (Célio Furtado) - 21/02/2009

Num entardecer de verão o discípulo Agostinho contemplava o pôr do sol da sombra do arvoredo que envolvia a escola. O período de aulas recomeçara. Aquele lugar àquela hora lhe proporcionava um prazer único.

Durante as férias o tempo lhe concedeu a oportunidade para realizar o que a liberdade poderia permitir. Mas não fez muito porque descobriu que a liberdade também limita, pois ela não pode tudo. “Nada pode tudo.”

Sobre esse pensamento, consultou o mestre. “O poder é limitado até mesmo para Deus?”

- Sim – disse o mestre. – Tudo tem sua razão de ser, inclusive o limite. Se Deus pudesse tudo não haveria gente faminta, injustiça, desgraça. Portanto, existe uma razão para ele deixar as coisas como estão.

O rapaz lembrou Tales de Mileto: “A coisa de maior extensão no mundo é o universo, a mais rápida é o pensamento, a mais sábia é o tempo e a mais cara e agradável é realizar a vontade de Deus.”

Foi quando concluiu: “Se o homem fizesse a vontade do Criador essas coisas ruins não existiriam. Por isso faz sentido dizer que o mal é o bem incompleto, e como Deus é completo, o mal é o bem sem Deus.”

Nesse instante sua atenção foi atraída pela chegada de Antero que veio sentar-se ao lado sem desviar os olhos da paisagem alaranjada. “Comparo isso aqui a uma boa leitura: o difícil é abrir o livro.”

- Costumamos sentir mais satisfação pelos prazeres que custam dinheiro ou sacrifício físico. Por melhor e mais aprazível que seja a leitura, sai mais em conta encontrar satisfação na dívida financeira. Se pagássemos pelo entardecer, esse lugar se tornaria um inferno – disse Agostinho.

Este novamente voltou a pensar em Deus, na idéia de limite, de poder. Veio outro pensamento: “A ilusão.”

De onde estava podia avistar o mundo em derredor, que dava a idéia de ilusão. O poder era limitado, assim como muitos valores eram ilusões. A beleza da serra era ilusão porque dependia da distância para existir. “Serras são azuis porque estão distantes”. A beleza de uma linda mulher também era ilusão porque dependia do tempo. “Mulheres lindas são assim porque são jovens”.

O mestre tinha razão ao dizer que a ilusão temia o amor. No início não entendeu tanto, a ponto de compreender. A reflexão o ensinou.

Seu raciocínio tinha bom fundamento, era verdadeiro porque quando se ama alguém o tempo não lhe carrega a beleza; o mesmo ocorre com a serra: se ela significa muito, não importa se a aproximação lhe tira o encanto do azul.

Olhou para o sol. Quanta determinação! Nesse instante falou para um Antero ainda inexperiente: “O que importa realmente na vida é saber o que se quer e para onde ir, pois como disse Schopenhauer: “Não existe vento favorável para aquele que não sabe
para onde vai.”

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