Num entardecer de verão o
discípulo Agostinho contemplava o pôr do sol da sombra do arvoredo que
envolvia a escola. O período de aulas recomeçara. Aquele lugar àquela hora
lhe proporcionava um prazer único.
Durante as férias o tempo lhe concedeu a oportunidade para realizar o que
a liberdade poderia permitir. Mas não fez muito porque descobriu que a
liberdade também limita, pois ela não pode tudo. “Nada pode tudo.”
Sobre esse pensamento, consultou o mestre. “O poder é limitado até mesmo
para Deus?”
- Sim – disse o mestre. – Tudo tem sua razão de ser, inclusive o limite.
Se Deus pudesse tudo não haveria gente faminta, injustiça, desgraça.
Portanto, existe uma razão para ele deixar as coisas como estão.
O rapaz lembrou Tales de Mileto: “A coisa de maior extensão no mundo é o
universo, a mais rápida é o pensamento, a mais sábia é o tempo e a mais
cara e agradável é realizar a vontade de Deus.”
Foi quando concluiu: “Se o homem fizesse a vontade do Criador essas coisas
ruins não existiriam. Por isso faz sentido dizer que o mal é o bem
incompleto, e como Deus é completo, o mal é o bem sem Deus.”
Nesse instante sua atenção foi atraída pela chegada de Antero que veio
sentar-se ao lado sem desviar os olhos da paisagem alaranjada. “Comparo
isso aqui a uma boa leitura: o difícil é abrir o livro.”
- Costumamos sentir mais satisfação pelos prazeres que custam dinheiro ou
sacrifício físico. Por melhor e mais aprazível que seja a leitura, sai
mais em conta encontrar satisfação na dívida financeira. Se pagássemos
pelo entardecer, esse lugar se tornaria um inferno – disse Agostinho.
Este novamente voltou a pensar em Deus, na idéia de limite, de poder. Veio
outro pensamento: “A ilusão.”
De onde estava podia avistar o mundo em derredor, que dava a idéia de
ilusão. O poder era limitado, assim como muitos valores eram ilusões. A
beleza da serra era ilusão porque dependia da distância para existir.
“Serras são azuis porque estão distantes”. A beleza de uma linda mulher
também era ilusão porque dependia do tempo. “Mulheres lindas são assim
porque são jovens”.
O mestre tinha razão ao dizer que a ilusão temia o amor. No início não
entendeu tanto, a ponto de compreender. A reflexão o ensinou.
Seu raciocínio tinha bom fundamento, era verdadeiro porque quando se ama
alguém o tempo não lhe carrega a beleza; o mesmo ocorre com a serra: se
ela significa muito, não importa se a aproximação lhe tira o encanto do
azul.
Olhou para o sol. Quanta determinação! Nesse instante falou para um Antero
ainda inexperiente: “O que importa realmente na vida é saber o que se quer
e para onde ir, pois como disse Schopenhauer: “Não existe vento favorável
para aquele que não sabe
para onde vai.”
