A Paraíba guarda encantos
que ainda dormem - embora em sono leve - sossegados, à espera de um
inevitável despertar num amanhã que virá carregando, além do progresso, a
especulação e a intranqüilidade.
Um desses encantos é o litoral sul, um santuário de belas praias, a
maioria com paisagens próprias e características que não se repetem nas
demais. Acaú, por exemplo, continua um nome desconhecido para a maioria.
Próxima a Pitimbu, é o último reduto dessa parte do nosso litoral. Seria
um refúgio perfeito se suas
piscinas naturais - formadas com a maré baixa – e seus extensos bancos de
areia não a denunciassem.
A presença do pescador aparece simbolizada nas dezenas de barcos deixados
à deriva ou encalhados propositalmente na esperança da maré alta.
Quando as águas sobem e os ventos encrespam as ondas, barcos e canoas se
libertam do poder da areia e iniciam o que poderia ser chamado de "dança
do balanço", o que dá a sensação de que a natureza realiza um ritual.
Talvez queira com isso dizer aos
pescadores que as águas estão prontas e o caminho livre para se contornar
os bancos de areia - agora submersos - e enfrentar o mar cor de esmeralda
rumo às formações de corais onde a vida marinha, generosa e abundante,
garante a sobrevivência de muitas famílias.
Mais ao sul avista-se Pernambuco, separado da Paraíba por um braço de mar
cuja travessia é feita por uma balsa que liga Acaú a Carne de Vaca, um
lugarejo simples onde tem-se a impressão de que a vida dispensa a pressa e
o além do necessário. Nesse lugar o visitante tem olhos apenas para as
pequenas praias que emolduram a paisagem. São verdadeiros caprichos
naturais que bem lembram uma pintura de um mundo de mistério e magia.
O braço de mar, semelhante ao da praia do Jacaré, também imprime forte
relação com a nossa história porque é nele que deságua o rio que margeia a
cidade de Goiana, onde os holandeses na época da colonização tiveram forte
envolvimento. Eles teriam aberto o leito do rio, tornando-o navegável até
Goiana.
A travessia ao entardecer deixa o lugar ainda mais envolvente. As emoções
afloram e parecem conduzir os pensamentos, sobretudo do visitante que
observa tudo, sem tempo de entender tanto, pois agora a generosidade do
sol poente é imensa, e tão intensa quanto efêmera.
Em Carne de vaca, do lado pernambucano da travessia, o sol desaparece
enquanto a balsa se prepara para seu último percurso naquele dia. Sem o
encanto da luz do arrebol o espírito pede calma e o universo em torno se
envolve de paz e recolhimento.
Em Acaú a noite chega escondendo o oceano e devolvendo ao céu o luar e as
estrelas brilhantes. No aconchego da rede o corpo se entrega acalmado pela
brisa mansa que traz consigo o canto doce das ondas. Tudo isso embala
pensamentos e lembranças,
sentimentos adormecidos, qualquer coisa de saudade.
