Dentre todos os desafios da vida viver é o maior de
todos. Esse pensamento me conduz a outro. Quando minha avó completou 90
anos de existência, a família se reuniu para celebrar. Em certo momento,
alguém perguntou a ela: "Em tanto tempo de vida, qual
foi a melhor coisa que lhe aconteceu?" A resposta veio pronta, sábia,
rápida: "Foi viver!"
Então que sejam vividos todos os desafios propostos e impostos pelo
dia-á-dia. Foi assim que surgiu a idéia de desenvolver o projeto do fundo
municipal de cultura de João Pessoa que me levou a pintar as belezas do
seu Centro Histórico.
Desafio embalado pelo invólucro da satisfação porque aquele lugar sempre
me incomodou, por tanto fascínio. A cidade velha guarda segredos e fatos
riquíssimos, de importância Capital para a história da Paraíba e do
Brasil, realçando o primeiro capítulo da terra descoberta por Cabral.
Sofro em ver quase tudo entregue à impiedade do tempo. Para não acrescer
meu sofrimento ao passar por suas ruas tortuosas, mergulho no passado e
imagino uma realidade que durou 400 anos, até a Segunda Guerra. Nesse novo
mundo encontro pessoas, intimidades e modos de vida. São comerciantes,
escravos, donas de casa, moças absorvidas por sonhos e paixões.

"Você deve explicações ao leitor", sugeriu-me a engenheira Kycia Cordeiro,
amiga, co-idealizadora e coordenadora do projeto. Pois explico. Quem vê
minha exposição no Tererê - um dos melhores restaurantes da Capital, praia
de Cabo Branco - e observa as mulheres por mim retratadas em oito quadros,
no início fica sem entender o porquê daquelas figuras. São as mulheres que
encontrei nesse universo, figuras que imagino terem existido onde hoje são
ruínas e casarões abandonados, no Centro de João Pessoa. Para o artista
elas existem e continuam lá, não como almas penadas, mas como figuras de
um mundo imaginário ou fantasias que só o artista com sua sensibilidade
percebe.
No projeto aprovado pelo FMC, cujo título é "Pintando na Cidade" a
proposta lançada exigia minha peregrinação por ladeiras empinadas e
calçadas irregulares. É nesse momento que se apresenta o segundo desafio.
Como sabe o leitor, sou cadeirante e vencer tantas barreiras não foi
exercício fácil para mim. Mas precisava enfrentar os fantasmas dos
obstáculos, porque a fotografia, feita por Roberta Monte - que divide o
projeto comigo - apesar de ser um excelente apoio, não substitui a
presença. Estar presente é como sentir o cheiro do passado, pois a vida
ali continua a transpirar através dos poros das paredes gastas e cheias de
lodo.
Os quadros estão prontos, o projeto executado. Minha missão foi concluída.
Resta agora o público vê, contemplar e fazer suas considerações. Espero
que eu tenha traduzido o sentimento de João Pessoa, assim como espero que
João Pessoa agora descubra e traduza a minha paixão por ela e por toda sua
gente.