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Mulheres na varanda

portalbip.com (Célio Furtado) - 15/11/2008

Costumamos afirmar que a esperança é o maior alimento da vida, aquele sentimento que mantém o homem vivo, disposto para enfrentar obstáculos e acreditar no amanhã improvável.

Segundo Balzac, morre-se quando a esperança acaba. Se esta vem associada ao amor dedicado a determinado projeto, as revelações podem ser extraordinárias.

Talvez tenha sido esse sentimento de esperança por encontrar um estilo para a minha pintura que acabei descobrindo “Mulheres na Varanda”.

A associação é forte porque eu tinha esperança, anseio também existente nelas. Isso mesmo. Essas mulheres se nutrem de esperança. Passam o tempo se alimentando de espera, cheias de desejos de que seus companheiros retornem. Chico Buarque criou
“Mulheres de Atenas”, imortalizando-as através da sua música.

As mulheres da minha pintura são uma visão regional daquelas descritas por Chico. Preciso que a leitora me conceda só um minuto para explicar sua história.

“Nos anos setenta e oitenta vi coisas que trouxeram marcas profundas na minha vida. Veio um tempo em que a região do agreste - Curimataú paraibano – se iluminou de prosperidade. Muitos fugiram da seca que desabou sobre o Nordeste, em 1970.

Quem conseguiu retornar reencontrou uma cidade com ares de espetacular crescimento. O Brasil vivia um milagre.

Feito uma pintura tomada de cores, contrastes e movimento, minha terra criou vida própria. Encantava-se pela simplicidade da sua rotina, tocada pelos costumes apurados ao longo da historia.

Essa felicidade era quebrada pela tristeza de centenas de mulheres privadas da companhia dos maridos.

Anos de espera, elas sofriam silenciosas. O olhar expressava desejo, expectativa, saudade. Se eles prometiam voltar, elas esperavam; se não prometiam, esperavam do mesmo jeito. Queriam seus homens de volta. Tinham partido para ajudar construir
cidades distantes, como Rio e São Paulo.

Dos lábios dessas mulheres ouvi lamentos, dos olhos tristes vi escorrerem lágrimas; do semblante, a idéia de desgosto sem fim. Quando recebiam cartas, devoravam-nas com a fome da saudade acumulada, com a sede do desejo suportado nas noites de solidão.

Passavam o dia debruçadas na janela, sentadas na varanda, sempre à espera de notícias. “Das jardineiras coloridas colhiam esperanças, nas fotografias amareladas pelo tempo profetizavam o seu destino.”

As Cores do Tempo, título da minha exposição – de 11/11 a 21/11 - que ocorre no TRT, da Capital, ao lado pça da independência, expõe o drama dessas mulheres e a realidade que as abriga. São sete obras dentro do estilo Regional Clássico. Comigo expõe Jairo, artista pessoense de escola surrealista, que traz um trabalho alegre e
de apurada técnica.

Caracterizada por tons envelhecidos, o Regional Clássico resulta da reunião de temáticas como paisagem, casario, natureza-morta e retrato. Pintei esses elementos durante vinte anos. Um dia uni tudo, surgiu o novo, estilizado e muito mais interessante.

Essa descoberta me trouxe paz de espírito, realização pessoal, agradou o artista e garantiu satisfação aos amantes da arte.

Sabemos que a Paraíba é proprietária de um invejável patrimônio artístico-cultural. Meu objetivo é dar minha contribuição a fim de que esse patrimônio cresça cada vez mais. Para mim não se trata de desafio, mas de compromisso com minha gente, com minha terra e, sobretudo, com a arte.

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