Costumamos afirmar que a esperança é o maior alimento da
vida, aquele sentimento que mantém o homem vivo, disposto para enfrentar
obstáculos e acreditar no amanhã improvável.
Segundo Balzac, morre-se quando a esperança acaba. Se esta vem associada
ao amor dedicado a determinado projeto, as revelações podem ser
extraordinárias.
Talvez tenha sido esse sentimento de esperança por encontrar um estilo
para a minha pintura que acabei descobrindo “Mulheres na Varanda”.
A associação é forte porque eu tinha esperança, anseio também existente
nelas. Isso mesmo. Essas mulheres se nutrem de esperança. Passam o tempo
se alimentando de espera, cheias de desejos de que seus companheiros
retornem. Chico Buarque criou
“Mulheres de Atenas”, imortalizando-as através da sua música.
As mulheres da minha pintura são uma visão regional daquelas descritas por
Chico. Preciso que a leitora me conceda só um minuto para explicar sua
história.
“Nos anos setenta e oitenta vi coisas que trouxeram marcas profundas na
minha vida. Veio um tempo em que a região do agreste - Curimataú paraibano
– se iluminou de prosperidade. Muitos fugiram da seca que desabou sobre o
Nordeste, em 1970.
Quem conseguiu retornar reencontrou uma cidade com ares de espetacular
crescimento. O Brasil vivia um milagre.
Feito uma pintura tomada de cores, contrastes e movimento, minha terra
criou vida própria. Encantava-se pela simplicidade da sua rotina, tocada
pelos costumes apurados ao longo da historia.
Essa felicidade era quebrada pela tristeza de centenas de mulheres
privadas da companhia dos maridos.
Anos de espera, elas sofriam silenciosas. O olhar expressava desejo,
expectativa, saudade. Se eles prometiam voltar, elas esperavam; se não
prometiam, esperavam do mesmo jeito. Queriam seus homens de volta. Tinham
partido para ajudar construir
cidades distantes, como Rio e São Paulo.
Dos lábios dessas mulheres ouvi lamentos, dos olhos tristes vi escorrerem
lágrimas; do semblante, a idéia de desgosto sem fim. Quando recebiam
cartas, devoravam-nas com a fome da saudade acumulada, com a sede do
desejo suportado nas noites de solidão.
Passavam o dia debruçadas na janela, sentadas na varanda, sempre à espera
de notícias. “Das jardineiras coloridas colhiam esperanças, nas
fotografias amareladas pelo tempo profetizavam o seu destino.”
As Cores do Tempo, título da minha exposição – de 11/11 a 21/11 - que
ocorre no TRT, da Capital, ao lado pça da independência, expõe o drama
dessas mulheres e a realidade que as abriga. São sete obras dentro do
estilo Regional Clássico. Comigo expõe Jairo, artista pessoense de escola
surrealista, que traz um trabalho alegre e
de apurada técnica.
Caracterizada por tons envelhecidos, o Regional Clássico resulta da
reunião de temáticas como paisagem, casario, natureza-morta e retrato.
Pintei esses elementos durante vinte anos. Um dia uni tudo, surgiu o novo,
estilizado e muito mais interessante.
Essa descoberta me trouxe paz de espírito, realização pessoal, agradou o
artista e garantiu satisfação aos amantes da arte.
Sabemos que a Paraíba é proprietária de um invejável patrimônio
artístico-cultural. Meu objetivo é dar minha contribuição a fim de que
esse patrimônio cresça cada vez mais. Para mim não se trata de desafio,
mas de compromisso com minha gente, com minha terra e, sobretudo, com a
arte.
