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João Pessoa - PB -

A paciência de Armando

portalbip.com (Célio Furtado) - 15/10/2007

O sol do verão inundava o quintal de luz, tornando as sombras das laranjeiras vivas e intensas. Do alpendre Armando viu o gato amarelo atravessando o muro, hábil, elegante, sem qualquer pressa. Desapareceu, saltando para o telhado do vizinho. Armando continuou onde estava, pensativo, aflito, mas ao mesmo tempo paciente. Preso ali não tinha muito que fazer. Sentiu vontade de voar, ir bem longe, descobrir o mundo distante do seu mundo. Não podia, ademais sentia medo, um sentimento reprimido pela incerteza do desconhecido. Não sabia, sequer, o significado da palavra liberdade.

Contudo - estava ciente - sua aflição se devia a limitações circunstanciais, pois todos precisavam saber que gatos são apenas gatos. Eles caminham, pulam e tentam enganar com saltos que parecem vôos, mas que, na verdade, são apenas saltos cheios
de agilidades, que servem mais para impressionar.

Armando fechou os olhos e disse para si: “Preciso me manter firme nesse pensamento, sem levar em conta seu porte físico. Ele pode ser maior em celeridade e malícia, mas em qualidades não é porque sei cantar e voar, embora o momento me prive desses prazeres. Estar cativo não é bom para ninguém, eu sei, todavia devo lembrar que a liberdade em demasia quebra o senso do limite e capacita o de irresponsabilidade. Afinal, tudo tem limite, a não ser o desconhecido”.

Armando fora criado solto, igual os outros pássaros da região. Quando via algum pousar no quintal seu peito comprimia, mudava o ritmo, num misto de coisa boa e ruim. Alegrava-se pela presença, entristecia-se por não poder ir junto. Um dia ouviu a dona da casa falando de liberdade. Ora, aquela gente não entendia de liberdade porque quem entende não prende sem justa causa. E não entendia mesmo, pois só pássaro sabe o que é bater as asas e voar bem alto para depois mergulhar em queda livre, riscando o céu, desafiando os ventos, brincando de esconde-esconde numa nuvem e noutra.

Teve tempo de experimentar o que sua cota de livre-arbítrio lhe permitiria. Agora a vida não era mais o céu cheio de azul, de espaço e de nuvens claras, mas um piado contínuo e monótono, transformado num lamento em forma de canto. Contudo, sabia tirar proveito da situação, pois o recolhimento induzia o espírito a conjeturar, a entender coisas que só podem ser entendidas diante da dor. Mesmo sem chance de estirar as asas e alçar vôo, sentia-se livre porque sua alma também se sentia assim.

Como se vê, a história de reclusão havia lhe trazido benefícios, porém nenhum tão rico quanto a paciência. E, vez que para quem sabe esperar, tudo vem a tempo, dois dias mais tarde o menino - a quem Armando pertencia - acordou atrasado para a escola. Botou água nova no bebedouro e soprou a palha do cocho, sem tempo para mais nada, tempo sequer de lembrar-se de trancar a porta da gaiola. Minutos depois a mãe do menino surgiu, viu a porta aberta, com tempo para mais nada, a não ser observar um vulto desaparecendo para além do muro alto do quintal.

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