O sol do verão inundava o quintal de luz, tornando as
sombras das laranjeiras vivas
e intensas. Do alpendre Armando viu o gato amarelo atravessando o muro,
hábil,
elegante, sem qualquer pressa. Desapareceu, saltando para o telhado do
vizinho.
Armando continuou onde estava, pensativo, aflito, mas ao mesmo tempo
paciente. Preso
ali não tinha muito que fazer. Sentiu vontade de voar, ir bem longe,
descobrir o
mundo distante do seu mundo. Não podia, ademais sentia medo, um sentimento
reprimido
pela incerteza do desconhecido. Não sabia, sequer, o significado da
palavra
liberdade.
Contudo - estava ciente - sua aflição se devia a limitações circunstanciais, pois
todos precisavam saber que gatos são apenas gatos. Eles caminham, pulam e
tentam
enganar com saltos que parecem vôos, mas que, na verdade, são apenas
saltos cheios
de agilidades, que servem mais para impressionar.
Armando fechou os olhos e disse para si: “Preciso me manter firme nesse
pensamento, sem levar em conta seu porte físico. Ele pode ser maior em
celeridade
e malícia, mas em qualidades não é porque sei cantar e voar, embora o
momento me
prive desses prazeres. Estar cativo não é bom para ninguém, eu sei,
todavia devo
lembrar que a liberdade em demasia quebra o senso do limite e capacita o
de
irresponsabilidade. Afinal, tudo tem limite, a não ser o desconhecido”.
Armando fora criado solto, igual os outros pássaros da região. Quando via
algum
pousar no quintal seu peito comprimia, mudava o ritmo, num misto de coisa
boa e
ruim. Alegrava-se pela presença, entristecia-se por não poder ir junto.
Um dia ouviu a dona da casa falando de liberdade. Ora, aquela gente não
entendia de
liberdade porque quem entende não prende sem justa causa. E não entendia
mesmo,
pois só pássaro sabe o que é bater as asas e voar bem alto para depois
mergulhar em
queda livre, riscando o céu, desafiando os ventos, brincando de
esconde-esconde numa
nuvem e noutra.
Teve tempo de experimentar o que sua cota de livre-arbítrio lhe
permitiria. Agora a
vida não era mais o céu cheio de azul, de espaço e de nuvens claras, mas
um piado
contínuo e monótono, transformado num lamento em forma de canto.
Contudo, sabia tirar proveito da situação, pois o recolhimento induzia o
espírito a
conjeturar, a entender coisas que só podem ser entendidas diante da dor.
Mesmo sem
chance de estirar as asas e alçar vôo, sentia-se livre porque sua alma
também se
sentia assim.
Como se vê, a história de reclusão havia lhe trazido benefícios, porém
nenhum tão
rico quanto a paciência. E, vez que para quem sabe esperar, tudo vem a
tempo, dois
dias mais tarde o menino - a quem Armando pertencia - acordou atrasado
para a
escola. Botou água nova no bebedouro e soprou a palha do cocho, sem tempo
para mais
nada, tempo sequer de lembrar-se de trancar a porta da gaiola. Minutos
depois a mãe
do menino surgiu, viu a porta aberta, com tempo para mais nada, a não ser
observar
um vulto desaparecendo para além do muro alto do quintal.
