Semanas atrás saí para pescar num açude próximo. Escolhi
o lugar porque, prometeram, havia muitos peixes e sua natureza me
inspiraria a escrever e pintar paisagens, temática que me fascina. Entre
um arremesso e outro contemplava e refletia.
Os peixes pareciam mais espertos que eu e roubavam o que havia levado como
isca. Comecei a ficar inquieto, mas esforcei-me e conservei a paciência
porque queria vencê-los, e uma regra básica para quem deseja vencer é não
perder a calma nem a esperança.
Em outras palavras, não queria aceitar a derrota. Não sou de desistir,
todavia confesso: as iscas estavam acabando e o sol abrasador. Mesmo assim
não desistia. Uns amigos que me acompanhavam se mostravam impacientes e
irritados. Percebi que a imobilidade lhes causava ansiedade; precisavam
andar. Aceitavam o fracasso da missão. Quis dissuadi-los, mas devia
acolher a idéia de vitória dos peixes sobre nós. Sem deixar que ouvissem,
resmunguei: “Nem sempre ganhamos. Eles estão certos . Desista!”
Sol alto, fim da pescaria. Restava-lhes a aventura de escalar coqueiros
numa vazante duzentos metros paredão abaixo. Sumiram numa trilha aberta no
capinzal. Sem poder caminhar – vez que sou cadeirante - esperei. Ao longo
da vida desenvolvi várias faculdades, entre elas a paciência. Entendi e
sinto que fiz muitas pessoas pensarem que esperar não significa cruzar
braços e deixar que o futuro se transforme em presente.
Pessoas em cadeiras de rodas também são dotadas de vocações e habilidades,
têm sonhos, expectativas e desenvolvem faculdades como a visão e o
pensamento, o que podem transformar situações. Acho que foi assim que
desenvolvi a arte da pintura. Às vezes precisamos perder certas
habilidades para que outras venham à tona e sejam valorizadas. Pensei no
meu mundo, meus projetos, erros e defeitos.
Era julho e tudo estava muito verde, mas havia poucas flores. Naquele
instante desejei um campo florido com muitas cores, diferente do
simplesmente verdejante. Mas como, se a primavera viria só mais tarde?
Precisava entender a natureza e saborear o que ela oferecia ali, naquele
instante, esquecer o que só viria mais tarde. “Você está certo, Célio.
Precisamos aprender a esperar!” - Disse para mim.
Os homens sábios ensinaram-nos que não basta escolher as coisas certas,
mas escolhê-las no seu tempo. Querer uma fruta sob o argumento de que se
tem fome não vai alterar o seu estado. Se ela não estiver no tempo da
colheita vai ter ranço, não fará bem e perderá o sentido. Foi ali quando
lembrei uma frase de Chico Xavier: “ Não espere dos outros aquilo que os
outros ainda não possuem para dar.” Depois fiquei imaginando: “Talvez seja
por isso que a canção “Epitáfio”, interpretada por Titãs, revele tamanho
sentido e sensibilize tanto, exigindo de nós o que ainda há tempo para ser
feito.”
