A arte de pintar tem os mesmos graus e degraus vistos na arte da batalha. Estar num combate já é de algum modo, ou desígnio ou vocação; sorte é sair vivo de lá. Quando comecei a pintar me senti assim, meio atraído, meio traído. As cores encantam, assim como os traços, os contornos, a ilusão de perspectiva. Por isso, de repente, vi-me atraído pela sua magia e traído pela ilusão de que aquilo seria bom continuamente.
Nada é bom continuamente. Numa batalha há muitos dias e inúmeras situações, umas boas, outras ruins; umas que envolvem vontade de prosseguir, outras de estancar. E quem decidiu tomar o caminho de avançar e desbravar o campo inimigo e desconhecido, certamente encontrará pela frente todas essas situações.
A menor distração pode representar um momento de descanso, de relaxamento, e nada acontecer. Mas pode também importar o instante que o inimigo mais desejou. O tiro pode ser mortal e simbolizar o término do jogo.
A vida requer disciplina e empenho, determinação, técnica e coragem. Sem essas condições entrar numa guerra é contar com grandes chances de derrota, humilhação, submissão.
Se existe uma qualidade que admiro em alguém é a certeza. Certeza significa consciência e determinação, compreensão do tempo como algo limitado. Quem tem certeza age pela razão e, portanto, sabe o que poderá encontrar pela frente. Assim, terá menores chances de ser surpreendido. O bom combatente é ousado e corajoso e seu conhecimento o ajuda a tirar proveito das situações adversas.
Quando conhecemos nossos desejos, limitações e possibilidades e temos conhecimento das condições do inimigo e seu real poder de reação, então não há motivo para temer um resultado de uma ou mais batalhas. O resto é estratégia, é razão, ousadia e, claro, boa dose de malícia.
Conhecer somente a si mesmo e desconhecer o campo inimigo, suas armadilhas, sua geografia significa perder todos os combates. De outro modo, conhecer as condições inimigas é ter informações sobre as melhores e mais adequadas formas de agir. Mas também nada adiantará só conhecer o outro lado. O conhecimento tem que ser equilibrado, como tudo na vida.
A arte da batalha tem os mesmos graus e degraus vistos na arte da pintura. Esse momento que estou vivendo – com a pintura em bom nível de amadurecimento e boa aceitação no mercado – é resultado de um esforço contínuo, articulado, tomado de perseverança e ciência de que um dia o inimigo seria vencido. E meus maiores inimigos estão dentro de mim. Eles são a preguiça, a indisciplina, pouca fé e esperança insuficiente. Acho que os matei, mas penso também que se não continuar vigilante hoje suas almas me assombrarão amanhã.
