Nos anos setenta e oitenta vi coisas que trouxeram marcas
profundas na minha vida. Muitos fugiram da seca que desabou sobre o
Nordeste, em 1970.
Os que resistiram puderam desfrutar da invernada ocorrida em 74, além do
clima de prosperidade ofertado pelo ciclo do sisal e pelo aquecimento da
economia nacional, efeito do milagre econômico. Nesse tempo a região do
rude Curimataú paraibano se iluminou de prosperidade.
Quem conseguiu retornar reencontrou uma cidade - Cuité - com ares de
espetacular crescimento. Tudo parecia encantador.
Como uma pintura tomada de cores, contrastes e movimento, minha terra
tinha vida própria, assim como a maioria das estrelas. Encantava pela
simplicidade da sua rotina e pelos costumes apurados ao longo da historia.
Seria, talvez, um mundo completo e feliz, não fosse a tristeza das suas
mulheres desamparadas, privadas da companhia dos maridos.
Anos de espera, elas sofriam silenciosas, numa versão local das mulheres
de Atenas. O olhar expressava desejo, expectativa, saudade.
Se seus homens prometiam voltar, elas esperavam; se não prometiam,
esperavam assim mesmo. Tinham partido para ajudarem construir outros
mundos, cidades distantes, como Rio e São Paulo.
Das bocas dessas mulheres ouvi lamentos, dos olhos tristes vi escorrerem
muitas lagrimas; do semblante, a idéia de desgosto sem fim. Quando
recebiam cartas, devoravam-nas com a fome da saudade acumulada, com a sede
do desejo suportado nas frias noites de solidão.
Passavam o dia debruçadas na janela, sentadas na varanda, sempre à espera
de notícias. Das jardineiras coloridas colhiam esperanças, nas fotografias
amareladas pelo tempo profetizavam o seu destino.
As Cores do Tempo, título da minha exposição ocorrida até semana passada
no Fórum Cível da Capital, é um retrato dessa época, um tempo perdido na
imobilidade do silêncio.
A maioria dos 12 quadros apresentados, de três metros quadrados, expõe
essas mulheres, suas dores, seus segredos, expectativas. Expõe o mundo que
as envolvia e a atmosfera vivida por esse colunista, que dos 12 anos de
idade registrou pedaços de passado, só agora transferidos para a tela.
As pinturas são compostas por tons envelhecidos e reunião de temáticas
como paisagem, casario, natureza-morta e retrato.
Resultado de dois anos de ´´ elaboração ´´, o trabalho só agora vem a
público. Embora, trate-se de uma mudança completa, a essência do trabalho
permanece e, assim, este colunista se mantém fiel a gosto e aquilo que
pretende encontrar e extrair da arte de pintar.
Quem não visitou a exposição do Fórum Cível terá boas chances de conhecer
novos trabalhos com a mesma proposta, que serão mostrados, ainda este ano,
em espaços como TRT, Mag Shopping e Shopping Tambiá.
