Segundo Ralph Emerson o homem é feito para a luta, não para
o repouso. É verdade. No dia em que meu sobrinho foi estudar em Minas sua
mãe o abraçou e, sem conter as lágrimas, entregou-lhe um pedacinho de
papel; estava bem dobrado. Disse: ´´ Quando se sentir frágil, leia isto
´´.
Somente ela tinha o poder de dimensionar a saudade que ia desabar sobre os
seus dias. A dor tinha pressa, e por isso não esperava, sequer, o
comparecimento da ausência. Sabia, contudo, que as circunstâncias, às
vezes, exigem das pessoas coisas difíceis de suportar, que se anunciam sem
escolha, numa espécie de obrigação.
O pai, que não era de palavras, engoliu uma saliva seca e guardou, a
chaves, a sua angústia. Apertou o rapaz contra o peito e deixou escapar
uma frase: ´´ Ele sabe se cuidar´´.
O pai sabia que a necessidade de ir já era parte da vida dele, e dos que
ficariam também, por isso não podiam ser contra, ou simplesmente não
animá-lo a partir. Talvez pensassem bem dentro da sua dor que os filhos
são, de fato, criados para o mundo, ou talvez entendessem que todos somos
responsáveis, não apenas pelo que fazemos, mas também pelo que deixamos de
fazer.
Quando pequenos aprendemos em nossa vida doméstica que o destino nasce
como um dom, cresce com o desejo, mas que só acontece com ações,
movimentos e interferências, inúmeras interferências.
Muitos desejam, poucos fazem o que desejam e só um número diminuto dá
continuidade ao que a maioria deixou de desejar. Daí a conclusão: ´´ O
difícil na vida não é fazer o que se quer, mas continuar querendo o que se
faz. Fazer algo continuamente, ou é dever ou é perseverança.
Por isso, em meio às lágrimas, o riso de esperança se desenhou no rosto de
todos. Confiavam no filho, conheciam sua firmeza de propósito.
Foi também um momento difícil para meu sobrinho. Ele sofreu menos, é
verdade, mas é próprio dos jovens sofrer menos, afinal, estão carregados
de adrenalina e do espírito de buscar. Esqueceu o papelzinho no bolso.
Duas semanas depois sofreu um grande abalo; pensou em desistir e voltar. O
papelzinho dobrado continuava no bolso da camisa da viagem. Um rasgo no
peito avivou a lembrança. Pegou-o, abriu-o e chorou quando viu a letra da
mãe:
´´ Meu filho, o mundo é de Deus, mas Ele aluga aos valentes.
