O que levou Georges Bernanos, pensador e jornalista francês,
a escrever: A esperança adquire-se?
Ele foi soldado de trincheira na Primeira Guerra Mundial e, certamente,
deparou-se com a morte inúmeras vezes, sendo obrigado a ver seus
companheiros serem mortos por irmãos desconhecidos. Como esperança de sair
vivo, só lhe restavam a sorte e a coragem para matá-los.
A vida é uma guerra contínua contra a insegurança, os medos de múltiplas
faces, neuroses adquiridas e as incertezas de um provável amanhã; o mundo,
um imenso campo de batalha onde temos todos, inevitavelmente, que
enfrentar inimigos invisíveis, ou seja, aqueles que criamos e alimentamos,
estrada afora, em nossa imaginação.
Um soldado jamais recebe instruções do seu superior para admirar enseadas
e montes, nem se encantar com as flores displicentes que surgem na relva
orvalhada. Ele é treinado para ver inimigos, não borboletas coloridas; é
adaptado para, no céu, identificar aviões, através de nuvens escuras, que
surgem para despejar colar de balas contra sua cabeça e as dos seus
colegas, não raios dourados de um sol que prenuncia o anoitecer.
Ontem assisti a um filme comovente: Além da Linha Vermelha, com Sean Penn.
Em determinado momento um soldado diz: Na guerra não importa se você é um
bom soldado, se foi bem treinado, ou não. Tudo é uma questão de sorte,
pois se você estiver no lugar errado, na hora errada, você morre.
Nossos avós disseram a nossos pais que a vida é uma iguaria feita de
porções de toda sorte de sentimentos, qualidades, defeitos, sonhos,
decepções, esperanças, além de uma pitada do sal da malícia e da astúcia,
mas em quantidade mínima para não matar o sabor. E, claro, sorte, muita
sorte.
Bernanos deve ter pensado que Deus não participa da estupidez e
bestialidade humana, onde irmãos matam irmãos e mães perdem filhos e
maridos. Certo que as revoluções provocam evoluções, mas também causam
cicatrizes profundas, enrijecem a alma e amargam o coração, extirpando da
vida o direito e a oportunidade única de vivê-la. Não sei por que, mas
sinto que mães não desejam heróis ao dar à luz, elas esperam apenas
filhos.
Certa vez quando decidi estudar pintura no Rio de Janeiro, minha mãe me
abraçou e percebi que havia muita esperança em seu abraço. Acho que sabia
da minha volta, tanto que nem demorei.
"Não podemos escolher um tempo para viver. O que devemos fazer é viver da
melhor forma no tempo que nos foi dado. Ao ver a frase de Gandalf, em
Senhor dos Anéis, revivi, através da janela do avião, as mãos dela me
acenando da plataforma do aeroporto.
Ela sorria porque entendia tudo; eu chorava porque não entendia as coisas
sobre as quais ela gastou tempo e dor para aprender.
