Como as lágrimas, a felicidade parte de dentro para fora, e não o contrário. Logo, há razão em dizer que, antes de desejarmos determinada coisa devemos observar primeiro qual a felicidade de quem a possui. Descobri que alguns possuem e são infelizes, enquanto outros não, e vivem, de algum modo, melhor. Por quê? A resposta pode estar na expectativa. Afinal, diz-se que o bom da festa é esperar por ela.
Essas divagações me inspiraram a escrever a história do rapaz
infeliz... Insatisfeito e louco para encontrar a felicidade se despediu de
todos, e partiu.
Andou alguns dias, parando somente para descansar. Uma semana depois
chegou a um vilarejo e na primeira casa pediu água para beber.
Vendo seu estado uma senhora, conhecida pela sua simpatia e generosidade,
trouxe-lhe, não apenas água, mas comida, roupas limpas e uma rede para
descansar.
Agradecido, o rapaz armou a rede na varanda da casa e cochilou. Estava tão
cansado que despertou apenas na manhã seguinte.
Percebeu que tivera quatro sonhos. Ao ver a mulher, contou-lhe um a um.
Disse que no primeiro estava fantasiado de mágico e podia fazer coisas
impossíveis, como sorrir diante das adversidades, dar algo sem esperar
nada em troca, chorar e ver nas lágrimas estímulo para prosseguir e se
encantar com as coisas do seu próprio mundo.
No segundo sonho se vestia como um caçador de animais ferozes. Por isso,
viu-se tão cheio de coragem; e quando a fera se fez presente lutou com
grande vigor e determinação, apesar de sentir medo em alguns momentos, e
só depois de vencê-la é que percebeu a diferença entre o medo e a
covardia.
O terceiro sonho o transformou num sábio que vivia numa praia deserta. Era
um homem de dúvidas, de muitas perguntas e poucas respostas, por entender
que a sabedoria era o efeito da demorada análise e da conveniência, e que
decisão se toma longe das opiniões apaixonadas, daí a razão de tanto
alheamento.
No último sonho não era mais um mágico, caçador nem sábio, era apenas ele
mesmo. Isso o fez triste e decepcionado.
Nesse instante a mulher aproximou-se e falou: Alegre-se, pois só os mais
corajosos são capazes de sair e caçar diante da incerteza; somente os
sábios têm o poder de ver na dúvida o caminho para a verdade e apenas os
mágicos conseguem transformar uma realidade medíocre em sonhos grandiosos.
Voltou para casa com uma certeza: Se não encontramos a felicidade em nossa
alma, é inútil procurá-la noutro lugar.
