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Os quatro sonhos

portalbip.com (Célio Furtado) - 22/01/2007

Como as lágrimas, a felicidade parte de dentro para fora, e não o contrário. Logo, há razão em dizer que, antes de desejarmos determinada coisa devemos observar primeiro qual a felicidade de quem a possui. Descobri que alguns possuem e são infelizes, enquanto outros não, e vivem, de algum modo, melhor. Por quê? A resposta pode estar na expectativa. Afinal, diz-se que o bom da festa é esperar por ela. 

Essas divagações me inspiraram a escrever a história do rapaz infeliz... Insatisfeito e louco para encontrar a felicidade se despediu de todos, e partiu.

Andou alguns dias, parando somente para descansar. Uma semana depois chegou a um vilarejo e na primeira casa pediu água para beber.

Vendo seu estado uma senhora, conhecida pela sua simpatia e generosidade, trouxe-lhe, não apenas água, mas comida, roupas limpas e uma rede para descansar.

Agradecido, o rapaz armou a rede na varanda da casa e cochilou. Estava tão cansado que despertou apenas na manhã seguinte.

Percebeu que tivera quatro sonhos. Ao ver a mulher, contou-lhe um a um.

Disse que no primeiro estava fantasiado de mágico e podia fazer coisas impossíveis, como sorrir diante das adversidades, dar algo sem esperar nada em troca, chorar e ver nas lágrimas estímulo para prosseguir e se encantar com as coisas do seu próprio mundo.

No segundo sonho se vestia como um caçador de animais ferozes. Por isso, viu-se tão cheio de coragem; e quando a fera se fez presente lutou com grande vigor e determinação, apesar de sentir medo em alguns momentos, e só depois de vencê-la é que percebeu a diferença entre o medo e a covardia.

O terceiro sonho o transformou num sábio que vivia numa praia deserta. Era um homem de dúvidas, de muitas perguntas e poucas respostas, por entender que a sabedoria era o efeito da demorada análise e da conveniência, e que decisão se toma longe das opiniões apaixonadas, daí a razão de tanto alheamento.

No último sonho não era mais um mágico, caçador nem sábio, era apenas ele mesmo. Isso o fez triste e decepcionado.

Nesse instante a mulher aproximou-se e falou: Alegre-se, pois só os mais corajosos são capazes de sair e caçar diante da incerteza; somente os sábios têm o poder de ver na dúvida o caminho para a verdade e apenas os mágicos conseguem transformar uma realidade medíocre em sonhos grandiosos.

Voltou para casa com uma certeza: Se não encontramos a felicidade em nossa alma, é inútil procurá-la noutro lugar.

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