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Dor e sofrimento

portalbip.com (Célio Furtado) - 09/01/2007

Certa vez o Dalai Lama recebeu uma mulher em prantos: '' Senhor, meu filho morreu, se conheces todas as respostas, então o ressuscita! ''

Sabiamente ele disse: '' Farei um remédio. Traga-me sementes de mostarda. Mas só serve de uma casa onde não tenha havido mortes na família. '' E a mulher saiu para procurá-las...

Sofremos, todos, de moléstias espirituais, umas curáveis, outras não. As causas às vezes estão perdidas em mares de horizontes nebulosos. É de lá que borbulha a fonte da inspiração que encanta a vida. A fé nasce da dor, a humildade também; ambas são belos exemplos de virtudes.

As pessoas extravasam suas dores de formas variadas. Uns bebem, outros rezam, uns falam, outros calam. Existem os que vivem estoicamente e, por fim, há os artistas, que transformam sua dor em arte.

Como sou artista plástico, deixe-me falar deles. Degas, o pintor das bailarinas, amargou a recusa do pai em permitir sua iniciação para o mundo das artes. A permissão paterna para abandonar o curso de Direito e se dedicar à carreira de pintor veio a duras penas. Se a revelação já era, em si, um castigo, o quanto não o torturava conviver com o conflito de buscar o que a vocação lhe suplicava e se curvar à vontade das ambições paternas?

Cézanne enfrentou o mesmo calvário, certo de que jamais pintaria, porque seu pai reprimia-o severamente. Sofreu. No fim fez pinturas geniais enquanto Degas metamorfoseou sua amargura em beleza.

A fase azul de Picasso ocorre no início da sua carreira artística. Sentiu-se embriagado de esperança e interrogações numa Paris romântica e festiva. Ele ainda amargava os efeitos da pobreza. Disse Picasso: ´´ A tristeza serve para a meditação... A dor é o fundo da existência ´´.

Ele queria mesmo expressar sua angústia. Vivendo na pobreza e na solidão o mundo que escolhe para retratar é o de mendigos, vagamundos, a gente medíocre dos subúrbios parisienses. Essa fase lhe trouxe grandes lições.

Retomemos a história da mulher que saiu em busca das sementes. Voltou no fim do dia e disse: '' Senhor, não trouxe as sementes. Em todas as casas em que estive alguém tinha perdido um ente amado."

O Dalai Lama então concluiu: '' As sementes eram para lhe fazer entender que a dor e o sofrimento não é sorte de alguns, mas uma experiência penosa que a eles todos estamos sujeitos. E a senhora não é exceção! ''

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