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A rosa vermelha

portalbip.com (Célio Furtado) - 19/11/2007

De repente, pensamos estar bem. E de repente, não estamos mais. Explodimos. São as emoções engatilhadas que apontam e disparam, são os anseios reprimidos que explodem por tanta espera. São também as angústias e aflições represadas que sem mais nem mais - se rompem causando inundações e devastações no peito do semelhante e de quem amamos.

Talvez seja culpa do amor que nutrimos pela vida, do medo da morte, do desejo até desesperador de continuarmos no jogo da existência, de não decepcionarmos nossa companheira, nossos filhos, amigos, sociedade e a nós mesmos. Queremos tudo, pois temos medo de tudo, desejamos mais porque fomos educados a ver tudo como insuficiente.

Então, perdoa-nos Senhor por às vezes dizermos palavras que, na verdade, não queríamos dizê-las, por não revelarem o nosso real pensamento. Perdoa-nos pelas vezes que fazemos, através do pensamento, juízos de nós e dos outros os quais não correspondem ao que sentimos no íntimo de nossa alma. Também nos perdoa pelas ações mesquinhas, planos egoístas e todo tipo de arbitrariedades.

Perdoa-nos por estarmos ficando cansados dos noticiários repetitivos. Bem sabemos, estão cheios de boas intenções, mas é que só discorrem sobre escândalos, corrupção e balas perdidas. Se ao menos resolvessem... Deviam noticiar outras coisas.

Já que nos perdoaste, dá-nos mais tempo porque a nossa agenda anda cheia e já escrevemos até na aba do verso.

Dá-nos mais oxigênio porque estamos pávidos e sufocados uma vez que o ar puro que havia no quintal o vizinho nos roubou antes do amanhecer.

Perdoa-nos Senhor por nos dirigirmos a ti apenas para reivindicações.

Desejei um mundo melhor, com ventos amenos e dias ensolarados, mas a meteorologia anunciou vendavais e céu encoberto com nuvens escuras. Preferi eu mesmo olhar. Então, da janela do meu apartamento, vi alemães matando judeus, judeus matando árabes e estes matando reféns.

Também vi a ética se deteriorar como um metal ao relento e a corrupção no país tornar-se endêmica e apavorante como uma doença sem remédio, vi meninos sendo arrastados pelas ruas e pessoas apavoradas com medo de saírem de casa. Liguei a tv e assisti a novela substituir as cadeiras na calçada e, ao mudar de canal, vi milhares de desempregados brigando por uma vaga num concurso. Será que tem gente de mais? Se tem, então por que proibir a camisinha?

Tenho outras coisas para te dizer, Senhor. Infelizmente, o espaço é limitado. Ah! Já ia esquecendo. Esta noite forçaram a minha porta, ainda ouvi. Sorte que estava no ferrolho, mas ao saírem me levaram as lâmpadas do terraço. Ainda bem que não viram a rosa vermelha que brotou na jardineira da varanda. Ainda bem!

Célio Furtado
  • Jornalista, cronista, artista plástico, colunista do jornal  A União
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