De repente, pensamos estar bem. E de repente, não estamos
mais. Explodimos. São as emoções engatilhadas que apontam e disparam, são
os anseios reprimidos que explodem por tanta espera. São também as
angústias e aflições represadas que sem mais nem mais - se rompem causando
inundações e devastações no peito do semelhante e de quem amamos.
Talvez seja culpa do amor que nutrimos pela vida, do medo da morte, do
desejo até desesperador de continuarmos no jogo da existência, de não
decepcionarmos nossa companheira, nossos filhos, amigos, sociedade e a nós
mesmos. Queremos tudo, pois temos medo de tudo, desejamos mais porque
fomos educados a ver tudo como insuficiente.
Então, perdoa-nos Senhor por às vezes dizermos palavras que, na verdade,
não queríamos dizê-las, por não revelarem o nosso real pensamento.
Perdoa-nos pelas vezes que fazemos, através do pensamento, juízos de nós e
dos outros os quais não correspondem ao que sentimos no íntimo de nossa
alma. Também nos perdoa pelas ações mesquinhas, planos egoístas e todo
tipo de arbitrariedades.
Perdoa-nos por estarmos ficando cansados dos noticiários repetitivos. Bem
sabemos, estão cheios de boas intenções, mas é que só discorrem sobre
escândalos, corrupção e balas perdidas. Se ao menos resolvessem... Deviam
noticiar outras coisas.
Já que nos perdoaste, dá-nos mais tempo porque a nossa agenda anda cheia e
já escrevemos até na aba do verso.
Dá-nos mais oxigênio porque estamos pávidos e sufocados uma vez que o ar
puro que havia no quintal o vizinho nos roubou antes do amanhecer.
Perdoa-nos Senhor por nos dirigirmos a ti apenas para reivindicações.
Desejei um mundo melhor, com ventos amenos e dias ensolarados, mas a
meteorologia anunciou vendavais e céu encoberto com nuvens escuras.
Preferi eu mesmo olhar. Então, da janela do meu apartamento, vi alemães
matando judeus, judeus matando árabes e estes matando reféns.
Também vi a ética se deteriorar como um metal ao relento e a corrupção no
país tornar-se endêmica e apavorante como uma doença sem remédio, vi
meninos sendo arrastados pelas ruas e pessoas apavoradas com medo de
saírem de casa. Liguei a tv e assisti a novela substituir as cadeiras na
calçada e, ao mudar de canal, vi milhares de desempregados brigando por
uma vaga num concurso. Será que tem gente de mais? Se tem, então por que
proibir a camisinha?
Tenho outras coisas para te dizer, Senhor. Infelizmente, o espaço é
limitado. Ah! Já ia esquecendo. Esta noite forçaram a minha porta, ainda
ouvi. Sorte que estava no ferrolho, mas ao saírem me levaram as lâmpadas
do terraço. Ainda bem que não viram a rosa vermelha que brotou na
jardineira da varanda. Ainda bem!
