Ainda vejo as lágrimas daquela mulher escorrerem-lhe rosto abaixo, lamentando a morte do filho. Os olhos perdidos num canto da sala confessavam sua desilusão frente ao destino: “Foi o que tive de direito”. E não disse mais nada, nem precisava. Conhecíamos a sua história, acompanhamos-lhe a vida. Acho que ninguém tivera tantos problemas.
Mãe é mãe em quaisquer circunstâncias, por natureza é diferente de pai que em certas situações se opõe ao filho, delatando-o, sentenciando-o; mãe, não. Se o filho é bom, ama-o; se é ruim, ama-o; se não presta de jeito nenhum, ela sofre.
Logo cedo na vida um dos filhos de Alminda – menino bom, tão bom que era um exemplo de menino – começou a revelar um comportamento estranho.
A vizinha e comadre, por confiança, disse-lhe: “Geraldinho anda tão calado, quase não vem aqui em casa e mal fala com meus meninos que lhe são, bem dizer, irmãos.” Alminda, que não queria admitir as falhas de Geraldinho, correu logo em sua defesa: “É a idade comadre, coisa de adolescente”. A outra ouviu calada, pois não devia se meter em assunto que não lhe dizia respeito, mas tinha certeza: “Coisa de adolescente que não é: os meus têm a mesma idade e continuam prestando.”
O tempo serve para tudo, para curar feridas ou, se não cuidadas, abri-las ainda mais. Foi o que aconteceu. Geraldinho passou a faltar às aulas, a chegar tarde da noite, alimentar-se mal, o que em pouco tempo lhe rendeu olheiras e um rosto abatido, um corpo magro, calças sobrando tecido. Não demorou para objetos desaparecerem misteriosamente e dinheiro sumir da bolsa de Alminda, que acusou a empregada e a dispensou.
As coisas continuaram a desaparecer, foi quando chegou a uma triste conclusão: “Geraldinho deixou de ser o meu menino bom.”
Numa madrugada um carro parou na frente da casa, era a polícia. Vieram avisar a respeito
de um corpo que boiava num córrego próximo, cravado de balas. “Como sabem
que se trata de meu Geraldinho?” Sabiam, pois tinha olheiras acentuadas,
um rosto
abatido, um corpo magro, calças sobrando tecido.
Dizem que os problemas podem diferir em função de quantidade, variedade e intensidade, mas se vivemos nesse mundo, compartilhamos essa experiência comum. Os problemas de Alminda não variavam muito, mas ela os tinha em quantidade.
Ainda vejo as lágrimas escorrerem-lhe rosto abaixo, lamentando a morte do filho. Não era Geraldinho, este se fora dois anos antes; agora era Paulinho.
Os olhos perdidos num canto da sala confessavam sua desilusão: “Foi o que tive de direito”. E não disse mais nada.
Depois daquele dia nós e o resto da rua não tiramos os olhos de Luizinho, o caçula, que enquanto moramos lá levou uma vida normal, graças a Deus. Ano e meio depois mudamos de cidade e nunca mais tive notícias nem de um nem do outro. Só espero que tenham sido felizes.
