Uns acreditam, outros desacreditam, o que não faz muita diferença. Mas deixe-me contar. Saint-Exupéry, que escreveu as aventuras do Pequeno Príncipe universo afora enquanto sobrevoava o deserto africano, sabia da existência do planeta - só agora descoberto pelos astrônomos - muito parecido com o nosso, que orbita em torno de uma estrela chamada Gliese 581.
O Pequeno Príncipe teria feito uma visita ao longínquo mundo. Será? Essa parte da história, atirada pela janela do avião, ficou, durante seis décadas, enterrada na areia e desenterrada pelo próprio tempo.
O capítulo inicia com o menino chegando ao planeta... Aportando numa praia ensolarada, cujas terras, antes cobertas por jacarandás, paus-brasil e ipês – ele encontrou apenas vestígios de troncos tombados – agora estavam ocupadas por extensos canaviais.
Numa incursão pelo lugar encontrou rios poluídos, mulheres grávidas catando lixo e mais adiante um homem com um machado em punho:
- O que é isso?
- Um machado.
- Acho que tudo tem sua finalidade, então, para que serve?
- Ele foi criado para cortar jacarandás, paus-brasil, ipês, mas como não há mais essas árvores, sua finalidade agora é outra.
- Por quê?
- O homem inventa coisas que servem para destruir o que já existe. E não importa se essas coisas foram criadas por Deus, pela natureza ou por ele próprio.
- Então, para que serve um machado agora?
- Para matar pessoas ou animais.
- Quer dizer que o senhor vai matar algo... Ou uma pessoa ou um animal...
- Geralmente mato animais, pois sou marchante.
- Não devia matar animais, pois há muita terra e deve haver também muita comida.
- Aqui as pessoas só pensam em canaviais, que só alimentam automóveis. Depois que as árvores foram todas cortadas, tudo foi ocupado pela cana de açúcar. Mas havia lugar, minifúndios, onde se plantavam culturas que garantiam a sobrevivência de quem não possuía canaviais. Com a necessidade de mais terras, essas pequenas propriedades deviam também ser ocupadas pela cana.
- Que lei obrigava essas pessoas invadirem o que não lhes pertenciam?
- A não lei, a fome do poder que é maior que qualquer outra fome. Foi quando o machado mudou de finalidade.
Ao perceber que o Pequeno Príncipe ficara em silêncio por um bom tempo, o homem perguntou:
- Você está triste?
- Estou, pois percebo que o senhor vai matar mais animais.
- Não, não vou. Só vou matar um homem que roubou meus animais.
