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Esperanças e incertezas

portalbip.com (Célio Furtado) - 17/04/2007

Era lento e calmo, mas geralmente chegava no tempo que prometia. Os outros eram enérgicos e agitados, mas comumente o esperavam, mesmo se não prometesse chegar no tempo que costumava prometer.

Meu avô nunca teve pretensões a nada na vida, nem se preocupava imitar os ícones da sua época, em ser qual os líderes políticos que batiam-lhe a porta em busca dos votos da família numerosa.

A leitura lhe bastava, a família e os amigos completavam-lhe a vida sossegada do interior arredio e insular, separado do resto do mundo.

Seu trabalho, uma modesta e rústica bodega, que melhor servia de rancho para reunir os amigos e lhes esclarecer o complexo desenrolar do jogo da Segunda Guerra, situava-se um pouco além da barbearia. Demorava-se, às vezes, o tempo de não poder mais continuar o propósito de abrir a venda.

Certa manhã levantava-se para sair (Preciso abrir a bodega, senão não tenho como criar os filhos!) quando um amigo o interrompeu, avisando: “É melhor almoçarmos.”

Nos meses de inverno as manhãs pareciam eternas, as tardes também pareciam eternas, a vida parecia mais eterna ainda.

Num dia desses a chuva desabou fazendo a torrente descer pelas ruas, transbordar para as calçadas, alagar becos sujos, quintais férteis, deixando tudo lamacento e intransponível.

Quando o rouxinol anunciou a manhã de domingo, seus filhos botaram roupa de banho para aproveitar a água do tanque.

Minha avó tinha saído para fazer compras. Era uma mulher contida, conscienciosa, de olhar ofensivo, embora de alma luminosa, como o sol que via inundar de luz as paredes úmidas e os recantos lodosos, que enchia, de vida, as folhagens, cujo reflexo surgia nas poças serenas e amareladas das depressões do calçamento.

Chegou a casa e viu os filhos gastando toda a água do tanque. Seus olhos deram uma expressão de censura que fez paralisar até mesmo o silêncio. As crianças remeteram a culpa ao pai, que autorizou a “farra do tanque”.

- Samuel, está certo autorizá-los a acabarem a água?

- Olhe para cima, está escuro e voltará a chover forte. Amanhã, se Deus quiser, o tanque estará cheio novamente.

- Ensinando seus filhos a jogarem fora tudo o que têm, crescerão sem o senso do limite, viverão de esperanças e incertezas, e amanhã serão pobres como nós. Não quero isso para eles.

Minha avó entrou e foi cuidar do almoço. Na manhã seguinte não choveu, como ele esperava. As nuvens encobriram o sol, trouxeram o rouxinol, esperanças para ele, incertezas para ela.

Naquela semana toda a água que se viu brotar saiu dos olhos de minha avó. A sua tristeza refletia a dúvida do futuro dos filhos. Meu avô continuou cheio de esperanças; ela, cheia de incertezas...

Célio Furtado
  • Jornalista, crônista, artista plástico, colunista do jornal  A União
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