Nos anos 70 a cultura do sisal no Curimataú, mais destacadamente em Cuité, foi essencial para a economia da região e para a sobrevivência das comunidades rurais, dependentes da agricultura familiar em função das condições do clima semi-árido.
A capacidade de gerar oportunidades abria o mercado de trabalho, gerava emprego, renda. A cidade vivia um tempo de glória, e igual a todo lugar, havia um ponto de convergência: “O bar Ouro Verde”.
Nas segundas-feiras, dia de feira na cidade, ajudava meu pai no armazém - um comércio de compra e venda de fibras, que ficava de frente ao mercado central.
Mas os acontecimentos só me prendiam até o meio-dia. Percebia a hora porque não havia sombra na calçada e a fome dava a impressão de querer destruir o estômago. A impaciência irritava meu pai que, para ver-se “livre” de mim, abria o cofre, tirava uma nota de dez (um Santos Dumont) e dispensava-me.
Eu almoçava e batia pernas para o bar (Ouro Verde) do meu tio. Mal me via e já pedia para limpar uma mesa, deixar cerveja noutra, dar um recado. Os fregueses se atropelavam em meio à confusão das conversas, gargalhadas, dos versos dos repentistas...
“...Quem amar uma, eu amarei dez, quem amar
dez, amarei cem,
Amo todas, não deixo uma e nem dez para ninguém...
...São mentiras do amor, pois só a dor é quem conforta a minha solidão...”
Um bom verso era medido pela reação das pessoas. Gostava daquilo; às vezes ficava feito uma estátua, admirando, vendo o verso nascer, a riqueza da rima, a surpresa do sentido. De repente, um grito. Era meu tio. “Olha o serviço!” Ia socorrer algum freguês desesperado por uma cerveja. De lá eu escutava pedaços de versos, aplausos, boas risadas.
Certa vez um homem deu um mote:
“A fantasia são as asas do pássaro do coração.”
O repentista estava sempre pronto:
“Na estiagem do isolamento quando no peito bate a tristeza...
Despeço-me da dor, do rancor e das mágoas que irrigam a solidão,
Pro meu peito só aceito a boa recordação porque
O que é belo não morre: transforma-se em outra beleza...”
O passado ficou onde está: na imobilidade do silêncio. Restou a fantasia
que, através das suas asas, vez ou outra, traz boa recordação. Lembro do
homem, do mote, da morte da mulher, causa da sua solidão. Lembro do
violeiro.
No fim do dia ganhava outro “Santos Dumont“. Pronto, agora tinha dinheiro para o cinema pela semana inteira. Era tudo!
Boa infância, belas lembranças... Mas as lembranças bastam, mesmo que boas, mesmo que belas. Afinal de contas, o que é belo não morre: transforma-se em outra beleza...
