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A hora de desistir

portalbip.com (Célio Furtado) - 24/03/2007

O dia-a-dia é feito no dia-a-dia, ao vivo, de improviso. Mapear é obrigatório, ajuda, simplifica, mas ninguém está seguro. Não se sabe com certeza qual o passo seguinte.

Autoconfiantes, muitas vezes estamos seguros quanto à nossa determinação, e saltamos, apoiando o pé exatamente aonde determina nossa vontade; contudo, o solo, por ser desconhecido, pode guardar surpresas, e como pode! Se for lodoso, escorrega-se; se for úmido e frouxo, atola-se. São as forças contrárias da vida (desacertos, imprevistos, mal-atendidos) exercendo seu poder; elas interagem com o nosso desejo intenso de que o pé alcance o apoio seguinte.

Mas o desejo, não é ele impulso, efeito dos sentidos? Se o é, tem-se um terreno fértil para o livre exercício de imprudências e imprevidências. Posteriormente, restará o arrependimento. E como ensina o pensador: "É muito mais fácil arrependermo-nos dos pecados que cometemos do que daqueles que pretendemos cometer." Então, arrependemo-nos, e depois, lá vamos nós.

Rumo (in-certo), céu azul, clima agradável. Que momento propício para partir. Até parece que tudo dará certo. A energia da alma, que é aquela força inexplicável que chacoalha o corpo e abastece a mente de coragem e persistência, avança, bate no desconhecido; o medo e a incerteza rebatem; responde o coração.

À medida que o meio do caminho se aproxima, o sol desaparece, turvando as coisas. A noite chega com seus muitos mistérios. Vem a vontade de desistir. Um passo à frente é um passo a menos do nosso mundo conhecido. Um único desvio é suficiente para nos atirar contra uma realidade completamente estranha.

O instinto nos alerta, exigindo pensamento e decisão. Confiar em quem? Na sorte, na experiência, no Céu? Confiar no Céu só vale sendo a fé proporcional à intensidade do pedido.

Os deuses conspiram, e vez ou outra dão uma mãozinha. Mas só ‘vez ou outra’. Não querem que nos tornemos dependentes, limitados. É a vida, ela lembra o jogo de xadrez onde o vencedor é aquele que enxerga mais longe que o adversário, que põe a peça em lugar protegido, sabendo quais as opções do oponente. Ganha o ousado, o autoconfiante, o desconfiado, aquele que jamais subestima seu adversário. Enfim, ganha o que faz o certo em menos tempo.

Portanto, a melhor hora de desistir é a que antecede o início. Muitos desistem no meio, inúmeros morrem na areia. Sobram os heróis. Sobre estes, lembrei de uma frase antiga: "O herói não é simplesmente o que venceu, mas aquele que não teve tempo de correr."

Célio Furtado
  • Jornalista, crônista, artista plástico, colunista do jornal  A União
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