Preocupado com o excesso de vaidade do filho,
o pai levou-o a uma viagem de negócios. Ao sair de casa, vestia camisa de
mangas, calça de linho, sapatos grã-fino. Apesar da reprovação, o pai
evitou comentários.
Chegaram a uma cidade onde a vida econômica gravitava em torno de um homem
muito poderoso. Disse:
- Filho, esta é a “cidade” de Jeremias. Ele possui uma fortuna
incalculável. Veja esse edifício, aquele, os dois no alto daquela colina,
tudo é dele.
- Ele mora aonde?
- Aqui, é para o seu escritório que estamos indo.
- Ele vai nos receber?
- Claro, ele é rico, porém simples e generoso.
Uma grande porta de vidro foi aberta por um homem de terceira idade, pouco
apresentável e de visível limitação física. Simpático, antes de se
retirar, pediu para aguardarem.
- Pai, quem é esse homem?
- O porteiro de Jeremias.
- Porteiro? Mas... Essa função cabe a uma pessoa jovem, bonita, de boa
aparência...
- Existem, na cidade, muitos com tal perfil, querendo o lugar desse
senhor. Mas a vida tem seus segredos; portanto, há uma boa razão para está
aqui. O fato de ser idoso, simples e deficiente não tira o carinho, a
confiança e o respeito que Jeremias sente por ele.
Impaciente pela espera, o rapaz levantou-se e foi ao banheiro. Encontrou
um homem. Olhando-o, disse:
- Simples desse jeito, também deve ser empregado do Jeremias.
- Não.
- Ah! Já sei... Também veio falar com Jeremias?
- Não.
- Não? E o que faz aqui?
- Sou Jeremias.
Depois de bem recebidos, andaram pela cidade.
- Pai, esse shopping?
- É de Jeremias.
- Essa fábrica?
- É de Jeremias.
- E essa mansão?
- Uma de suas moradas.
- Aquela casa bonita lá em cima?
- Sua também. Jeremias gosta muito dali por causa da vista e da brisa. É
sua casa de verão.
Passando por um casebre, o filho debochou:
- Pai, essa “mansão” também é do Jeremias?
- É, filho: Foi sua primeira morada. Ele teve um passado rude, simples e
difícil; enfrentou obstáculos. Adquirindo esta casinha, preservou sua
história e deu (a muitos) exemplos de perseverança e obstinação.
Partiram. Sol forte, o pneu baixou na saída da cidade. A sombra de um muro
alto e extenso trouxe um pouco de frescor. Enquanto trocava o pneu, o
filho perguntou, já num tom mais humilde:
- Aí é também morada do Jeremias?
- Ainda, não, filho. Mas um dia será... Aliás, será sua última morada!
