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João Pessoa - PB -

Entre a crítica e a poesia

portalbip.com (Antônio Mariano) - 28/07/2005

A revista eletrônica Zunái, editada pelos poetas Rodrigo de Souza Leão (RJ) e Cláudio Daniel (SP), lança a pergunta “É possível conciliar experimentação formal e lirismo na criação poética?”

Antes de tudo, pensemos pelo senso comum e, neste caso, nada melhor do que recorrer a uma ferramenta corriqueira a todos: o dicionário. O verbete constante no Houaiss registra duas acepções (3 e 5) que a nosso ver trazem direções precisas neste sentido. Uma: “Tendência literária que privilegia a subjetividade e as formas que deixam transparecer o estado de alma do autor”. Outra: “exaltação do espírito, que se manifesta pela expressão viva de sentimentos; paixão”.

Não podemos desprezar, é claro, a noção de musicalidade que a origem da palavra na antiguidade clássica nos traz, remetendo diretamente ao instrumento Lira, que acompanhava as composições cantadas. Fechando as definições lexicais, vemos, curiosamente, ainda nesta fonte, que o adjetivo “lírico”, usado como substantivo pode ser entendido também como sinonímia de poeta.

Na questão formulada pela revista, os termos são postos em situações conflituosas. Como se fosse regra um existir independente do outro. Certo é que a pergunta reflete, de algum modo, um pensamento geral, embora equivocado. A experimentação formal, que teve no século XX suas vias de radicalização, ao dialogar e ser influenciada por outras artes e mídias, esses intersignos como as artes plásticas, publicidade, a computação gráfica, o vídeo, sonoridades dissonantes, recursos interativos, entre outros, tem acirrado ânimos em discussões já gastas, criado partidos, dividido tribos.

Mas não é contra-senso e sim um grande desafio a criação poética que pretenda aliar numa atitude única as duas linhas, dirimindo tais fronteiras.

De fato, a boa poesia escrita atualmente tem destacado excelentes nomes que em momentos felizes não cederam a nenhum dos extremos, quais sejam: o de não enjoar como os dulçurosos melaços que a idéia do lirismo sem aparas pode sugerir ou a chatice matemática e inteligível a poucos que alguns exemplos de experimentações conquistaram a antipatia de muitos conservadores.

Não há dúvida que a poesia alvo de procura de leitores experientes no convívio literário será a que não limite o seu trânsito a mãos únicas do exercício de meios. Se por um lado a arte não pode prescindir da emoção, para não se descaracterizar em sua origem, por outro, não deve deixar de lado a pesquisa de novas formas de expressão que a época de seus criadores lhe faculta. Isto é basilar.

Contemporâneos como Glauco Mattoso, Micheliny Verunschk, Paulo Henriques Britto, Cláudio Daniel, Rodrigo Garcia Lopes, Frederico Barbosa, Virna Teixeira, Sérgio de Castro Pinto e Maria Esther Maciel, para citar à sorte nomes que afluem à memória graças a leituras recentes, acertam quando não perdem de vista esta referência.

A maior contenda, porém, continuará a ser travada pelo poeta consigo mesmo a partir da inquietação, do estudo perene, colocando-se em cheque constantemente, para não repetir ou se repetir, para não ficar manjado ao pensar com presunção que está na frente quando perdeu o bonde da poesia.

Antònio Mariano
  • Poeta e colunista do jornal A União de João Pessoa - PB
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