A revista eletrônica Zunái, editada pelos poetas Rodrigo de Souza Leão (RJ) e Cláudio Daniel (SP), lança a pergunta “É possível conciliar experimentação formal e lirismo na criação poética?”
Antes de tudo, pensemos pelo senso comum e, neste caso, nada melhor do que recorrer a uma ferramenta corriqueira a todos: o dicionário. O verbete constante no Houaiss registra duas acepções (3 e 5) que a nosso ver trazem direções precisas neste sentido. Uma: “Tendência literária que privilegia a subjetividade e as formas que deixam transparecer o estado de alma do autor”. Outra: “exaltação do espírito, que se manifesta pela expressão viva de sentimentos; paixão”.
Não podemos desprezar, é claro, a noção de musicalidade que a origem da
palavra na antiguidade clássica nos traz, remetendo diretamente ao
instrumento Lira, que acompanhava as composições cantadas. Fechando as
definições lexicais, vemos, curiosamente, ainda nesta fonte, que o adjetivo
“lírico”, usado como substantivo pode ser entendido também como sinonímia de
poeta.
Na questão formulada pela revista, os termos são postos em situações
conflituosas. Como se fosse regra um existir independente do outro. Certo é
que a pergunta reflete, de algum modo, um pensamento geral, embora
equivocado. A experimentação formal, que teve no século XX suas vias de
radicalização, ao dialogar e ser influenciada por outras artes e mídias,
esses intersignos como as artes plásticas, publicidade, a computação
gráfica, o vídeo, sonoridades dissonantes, recursos interativos, entre
outros, tem acirrado ânimos em discussões já gastas, criado partidos,
dividido tribos.
Mas não é contra-senso e sim um grande desafio a criação poética que
pretenda aliar numa atitude única as duas linhas, dirimindo tais fronteiras.
De fato, a boa poesia escrita atualmente tem destacado excelentes nomes que
em momentos felizes não cederam a nenhum dos extremos, quais sejam: o de não
enjoar como os dulçurosos melaços que a idéia do lirismo sem aparas pode
sugerir ou a chatice matemática e inteligível a poucos que alguns exemplos
de experimentações conquistaram a antipatia de muitos conservadores.
Não há dúvida que a poesia alvo de procura de leitores experientes no
convívio literário será a que não limite o seu trânsito a mãos únicas do
exercício de meios. Se por um lado a arte não pode prescindir da emoção,
para não se descaracterizar em sua origem, por outro, não deve deixar de
lado a pesquisa de novas formas de expressão que a época de seus criadores
lhe faculta. Isto é basilar.
Contemporâneos como Glauco Mattoso, Micheliny Verunschk, Paulo Henriques
Britto, Cláudio Daniel, Rodrigo Garcia Lopes, Frederico Barbosa, Virna
Teixeira, Sérgio de Castro Pinto e Maria Esther Maciel, para citar à sorte
nomes que afluem à memória graças a leituras recentes, acertam quando não
perdem de vista esta referência.
A maior contenda, porém, continuará a ser travada pelo poeta consigo mesmo a
partir da inquietação, do estudo perene, colocando-se em cheque
constantemente, para não repetir ou se repetir, para não ficar manjado ao
pensar com presunção que está na frente quando perdeu o bonde da poesia.