portalbip.com (Anastácio Pereira) 05/06/2010
O pau comeu naquele ano de carnaval. 1968 era o ano.
Os “periquitos verdes” (nomes que eram apelidados, os
valorosos jovens que, obrigatoriamente, até os dias de hoje, se
alistam para servirem ao Exército Brasileiro). Bamboleavam e
resfolegavam bêbados, na Rua General Osório, centro da
capital, João Pessoa (nunca gostei desse nome), com
direção ao cabaré.
Normélia, Carioca, Osana, “Zé”
Eustáquio, eram (os mais famosos), ou iam para outros
“puteiros” menos famosos, que afloravam a mais rica rua
(Rica?...) há... há...há..há!... Rica sim,
no maior comércio de efervescência do amor prazeroso
trocado por dinheiro), da cidade baixa, a rua Maciel Pinheiro e, dava
como marco encerrado, na Rua da Areia, passando, lógico, pela
tradicional praça Pedro Américo e desembocando na rua da
escadaria.
Comum eram todas as noites, a troca de bola no círculo do
“peru” doido, da juventude residente no centro, eles vinham
das ruas principais para, até às 23h00 horas, ficarem
naquela ginga de jogadores amadores.
- De repente alguém grita... “Periquito Verde”!
Vão pro cabaré... É?
- Quem vai é tua mãe... Seu filho da puta! - Brada um
valoroso soldado, que, mesmo bêbado, já estava em
posição de briga, como se fosse enfrentar um
batalhão de inimigo.
Sem armas em punho, a troca de sopapos começou.
- Tú pega o do canto. Tú o do meio... Tú o da
esquerda, tú o do outro lado... E tú, o da ponta.
Os soldados, sob o comando de um bravo estrategista de combate, que
já tinha traçado seu plano de guerra, partiram para o
ataque, aos desinformados e desocupados estudantes. Prontos para
dizimá-los, com suas experiências de guerra e luta, (que
guerra?), adquiridas no quartel, que os habilitava, para estarem
prontos e dispostos para salvarem à pátria.
- Aí o “cacete” comeu...
- Tapas..., Socos..., Pontapés..., Foram o cardápios
noturno, daquela batalha sangrenta entre meia dúzia de civis e
militar (federal), resultando em quebra de nariz, olhos inchados, bocas
rasgadas, dentes quebrados de ambos os lados.
- Príiiiiiiii! Priiiiiiiiiiiiiii! – trilhou ao longe o
grito de socorro, em um som estridente, vindo da garganta que soprava o
apito, do subnutrido “Papa Sereno” (vigia noturno –
homem simples da periferia que assomava o posto de guardião das
casas).
- Priiiiiiiiiiiiiii, Príiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii,
Priiiiiiiiiiiiiiiiiiiii – insistia o vigilante.
– Chama a polícia! Gritou um morador atordoado, ainda com
“remela” nos olhos, do patamar da sua janela (naquela
época, podia-se abrir as janelas à noite, que já
dava na rua).
- Quieta arreda... eis que surge a RP (Rádio Patrulha).
Num lampejo, não se via mais ninguém, não se ouvia
mais um barulho.
- Eles foram por ali. Apontava um morador, para a ladeira da Borborema
- Os soldados desceram pela Ladeira do São Francisco... Informa
outro...
- Que aconteceu? Um RP pergunta.
- Os meninos estavam jogando bola, e foram agredidos por soldados do
exército, todos bêbados. - informou um terceiro morador.
- Vamos atrás deles? - Pergunta um PM, coçando a
cabeça...
- Essas alturas... Hãm! Ninguém encontra mais nada,
já fugiram todos... Ponderou um outro RP.
Na fresta da porta, de suas casas, os anjinhos desocupados, cochichavam
uns com os outros, observando a bola que havia sido esquecida, num
cantinho da calçada, inocentemente protegida por um
paralelepípedo, que insistia sempre, está solto na rua.
- Vai buscar a bola... Alguém sussurrou.
- Deixa a polícia ir embora... Respondeu outro.
Após quinze minutos de troca-troca de palavras, com os moradores
da rua. Eis que, de repente, como vieram, a RP partiu, levando consigo,
um troféu como prisioneiro, a Bola, que foi responder
inquérito na delegacia, e provocou a nova guerra civil entre
amigos, só que dessa vez, dentro de suas casas.
No cabaré, festivamente, os “periquitos verdes”,
foram comemorar a vitória da primeira guerra civil campal, com
direito a estratégias bem sintonizadas, com o aprendizado que
tiveram.
Missão cumprida... Sem um tiro sequer... Salvaram a dignidade,
de nunca mais serem apelidados. Os bravos e jovens soldados do
exército brasileiro.
Os estudantes da época, anos após anos, ficaram sem
dignidade, não souberam se defender pela força bruta,
não tinham estratégias militares de combate, mais fizeram
surgir e marcar para sempre a força de uma união.
Deixaram, para os dias de hoje, um belo exemplo de combate, usando como
principal recurso, palavras: de ordem; de disciplina; de amor; de
liberdade; de responsabilidade; de mudanças; enfim, de almejar e
deixar para os filhos, o direito de poder ir e vir, sem atropelos,
afinal, a única lição que aprenderam, foi de que
apelidos, também podem provocar guerra.
Essas lembranças, são fontes que marcaram destinos
trágicos, de combate civil, e permanência austera, de
regimes, que não podem jamais, viver entre os povos.
Ora, se um simples apelido, outrora, feria a dignidade de defensores da
pátria, porque não trazer, os “marrudos” e
estrategistas militares, para combaterem a violência, que
é apelidada de “narcotráfica”. Eles
traficantes, que buscam, brilhantemente, defenderem os seus apelidos,
pois que prolifera e assume, um novo poder no Brasil.