A figura excêntrica miúda e controvertida do poeta sofre
mais uma vez. Redundantemente sofre, bem mais agora, pelos desleixos à sua
imagem que vive miudamente plantada no centro de nossa capital. Em vida,
esse belo espécime de poeta sonhador, perambulou por todas as camadas da
sociedade pessoense, quiçá paraibana. Tive o prazer de vê-lo, sempre nos
caminhos do centro da capital, onde passava na frente dos grupos
escolares: Thomas Mindello e Antonio Pessoa. O segundo grupo, que já fora
a primeira Faculdade de Direito e, o primeiro, o Centro Cultural das
Artes, em recentes dias de hoje. Neste, em sua lateral, se encontra ele
esculpido. Um poeta sonhador: Manoel Caixa D’Água.
Não o conhecia pessoalmente, nunca lhe apertei sua mão, nuca sorri para
ele, nem, tampouco, recebi seu sorriso. Também pudera, ele não fazia parte
do meu convívio! Ele já era o patrimônio da sociedade pessoense, mesmo sem
o saber. Vindo, naturalmente, ser reconhecido após sua existência entre
nós.
Como disse antes, não o conhecia pessoalmente, mais saboreava sua passagem
diária na nossa sociedade. Nos restaurantes, nas igrejas, em plenários
políticos, barracas de cachaça, em frente aos três Poderes, sempre
pequenino no seu amarrotado linho branco, e, enfim, no bar da A.P.I.
Associação Paraibana de Imprensa. Ele estava em todos os lugares, em todos
os momentos críticos e importantes, como um retrato vivo, um andante
cavaleiro de uma brigada só. Servindo até para galhofeiros o ver passar e
tornar-se alvo de suas maneiras. Conviveu com os mais ilustres políticos
paraibanos, como jornalistas e literatos escritores, que ainda vivem
saboreando o estar e o de caminhar entre os vivos. Conviveu ainda, esse
nosso poeta, com imortais, das academias das letras e poesias da Paraíba.
Hoje, nosso convívio com o poeta está em escultura de Argila? Barro? Pedra
calcária? Só areia? ... Bem! A idéia foi ótima colocando o poeta pertinho
de nós, para que o vejamos e possamos cumprimentá-lo. - Como sempre o
faço.
Da mesma forma, como foi importante, logo perto dele, colocar a escultura
do Poeta do EU, Augusto dos Anjos, em ferro, que será tão eterno nas
nossas lembranças, quanto o também nosso Manoel, só que em material
diferente, podendo acontecer o Caixa D’Água sumir.
Cortaram-lhe as mãos na escultura, mãos que escreveram poemas. Mas nunca
cortaram-lhe, quando estava entre nós. Seus pés esculpidos estão virando
pó. Seu terno, na escultura em cor de madeira, deveria ser branco. Como se
já não bastasse a construção do monumento à ele, ter sido em tamanho
desproporcional, mesmo ante a figura amiúde do poeta, sente-se que faltou
a linha de proporcionalidade estética, racionando por demais, seu tamanho
(perdoe ao escultor, sem críticas). Ela está se deteriorando. Enfim, o
poeta está sumindo, se após morte virara pó, agora vem sendo bem pior,
pois se apagará tudo, caso, em passos rápidos, não for recuperada sua
imagem.
